In Memoriam
Dos poucos amigos que tenho (que posso realmente considerar AMIGOS), há aquele que deu um passo além. Nos conhecemos em um dos melhores verões de toda a minha existência. Fuseta, Portugal. Praia, música, diversão, e amizades que perduram até hoje.
Essa, porém, especial. Especial a ponto de ele ter dado o meu nome ao filho dele. Gostávamos de falar sobre tudo, e principalmente sobre os nossos sonhos.
Ele queria duas coisas: ter uma Harley Davidson e trabalhar com publicidade. Pensava em fazer (por exemplo) um comercial para a Levi’s Jeans. Um congestionamento no trânsito, um Porsche com um cara e uma mina gostosíssima lá dentro. Os dois suando com o calor infernal dentro do carro. De repente, pára ao lado do carro uma Harley (tinha que ser) e um cara usando a famosa Levi’s. A mina sai do carro, sobe na moto e eles vão embora, deixando o cara no Porsche com cara de besta.
Claro que Porsches têm ar-condicionado. Mas o que vale é o sonho. É partilhar o sonho. E nós não nos cansávamos.
Lembro daquela vez que fomos dormir na ilha. É uma ilha em que não se pode passar a noite, e nós fomos. Se bem me lembro, éramos 4 carinhas e umas 7 meninas. Quer melhor que isso? Pois vai ter. A determinado momento, nós (homens) estávamos jogando frisbee (freesbee?) e ficamos cansados. Já estava anoitecendo. Mesmo assim, resolvemos entrar no mar pra dar aquela refrescada. As meninas estavam na praia, arrumando os colchonetes e cobertores, e tirando um barato da gente jogando. No mar, ele dá um sorriso e fala “tive uma idéia”. Sem pensar duas vezes, mergulha e quando sua cabeça aparece novamente, tem um sorriso safado. Começa a girar o calção por cima da cabeça e a cantar “tô nu, tô nuzinho”. Claro que nós três imediatamente seguimos o exemplo e em poucos segundos podiam se observar 4 marmanjos rodando as indumentárias por cima da cabeça cantando “tô nu, tô nuzinho” para 7 meninas. O que nós não esperávamos é que elas de repente se levantassem e começassem a correr na nossa direção. Como estávamos sem pé, não conseguíamos correr, por isso cada um nadou pra um canto diferente, até que conseguíssemos recolocar nossas roupas (sim, a intenção delas não era erótica, e sim de roubar nossas roupas – éramos novinhos).
Confesso que depois disso não falamos muito mais. Mas não era preciso. Eu morava no Brasil, ele em Portugal. Passamos muitos anos sem conversar (uns 7). Quando vim morar em Portugal, telefonei e foi como se nunca tivéssemos parado de conversar. Soube também que ele tinha se casado e que tinha um filho. Com o meu nome. Por minha causa.
A menos que já tenham passado por isso, não imaginam como isso mexe com uma pessoa.
Finalmente, 2 anos atrás, voltamos à Fuseta. Sem as brincadeiras habituais, claro, pois agora ele tem 1 filho (do qual eu me considero um padrinho) e uma filha, além da esposa.
O sonho de ter Harley não vingou. Em seu lugar, uma Virago. Moto estradeira também, estilosa. Não é publicitário, mas tem uma loja de tatuagens.
Finalmente conheci o filhote dele e inclusive fomos passear num Parque Aquático no sul de Portugal. Rimos, relembramos, e mais uma vez, fomos moleques partilhando sonhos.
Ficamos de nos telefonar qualquer dia desses e de marcar alguma coisa. Mas sabíamos que o telefonema não seria tão cedo, pois o trabalho dele ocupa o tempo todo, e a distância também não ajuda muito. Mas de qualquer forma, estávamos ali. Disponíveis para qualquer momento.
Domingo recebi o telefonema. Um acidente de moto. Morte. Morte? Não pode ser, eu ia ligar pra ele qualquer hora dessas. Ele ainda não tem a Harley. Tem a minha idade. Morto não.
A 20 de Maio de 2006, meu amigo Bruno deixou a esposa e os filhos, em um acidente besta. Ele nunca gostou de velocidade. Foi lento, por causa de areia no chão e um Scania em hora e lugar errados.
Eu sempre temi que ele nunca soubesse o quanto a nossa amizade significa pra mim, mas agora ele deve saber. Ele deve poder entrar na minha cabeça, no meu coração e finalmente perceber que fomos irmãos e que isso irá sempre prevalecer acima de tudo.
Vou manter a nossa foto daquele verão no meu quarto e um dia espero que a gente se encontre para conversar e beber mais umas cocas. Quem sabe tocar a nossa velha versão de Knocking On Heaven’s Door (irônico, né?).
Boa viagem meu camarada. A gente se vê.


May 19th, 2008 at 2:34 pm
[...] Amanhã será o aniversário de dois anos da perda de um amigo e da confirmação de a nossa amizade é eterna. [...]