Fronteiras da mente
Ontem… me despedi dela. Nó na garganta, claro…. quem não sentiria?
E me virei de costas, mochila nas costas e violão na mão..ainda me virei uma vez pra trás…ela tava lá olhando pra mim… me mandou um beijo… pra não desabar, mostrei minha língua a ela…fuga… e me virei para a frente. Mantive em minha memória a última imagem dela… um beijo jogado no ar, apontado pra mim… e assim fui para a sala de espera… portão 3…
Entrei no avião… um moleque curioso ao meu lado perguntava ao pai coisas sobre a pista, o avião, as nuvens… o pai tentava do jeito que podia responder, inventando, deduzindo…
Decolamos e começamos a deixar Brasília pra trás… logo era apenas um conjunto lindo de pontinhos luminosos… entre aqueles pontinhos estava ela… talvez pensando em mim… talvez xingando alguém no trânsito… talvez conversando com familiares… quem saberia me responder?
Bem… li meu livro novo a maior parte do tempo… até que chegamos ao Rio…. Aeroporto do Galeão… aquela pista maldita que começa na água e fica todo mundo em pânico antes do pouso, porque não vê terra…. pousamos. Garoa chata… os passageiros que iriam descer no Rio saíram do avião. Eu permaneci com mais umas 4 pessoas… os passageiros começaram a entrar no avião novamente… decolamos novamente, rumo a SP…
Depois de 30 minutos de vôo, o Comandante avisou que teríamos que ficar orbitando em cima de Ubatuba, pois havia acúmulo de aeronaves no pátio e também para pouso…
Pela janela eu via mais uns 4 pontos cintilantes…. talvez uns 1.000 pés abaixo… havia 2 acima de nós… estávamos totalmente vulneráveis e dependentes dos controladores do radar…muitas nuvens CB, baixa visibilidade…. na hora pensei nas minhas aulas no Campo de Marte, e relembrei as histórias contadas por um professor que era controlador de radar de Congonhas… sim, se bobear era ele que estava conduzindo nosso avião… Bem… eu confio no comandante, afinal ele é treinado e…”Senhores passageiros, aqui é o co-piloto Djalma e gostaria de convidar qualquer um que tenha noções aeronáuticas a entrar em contato com nossa chefe de vôo, Ana Lisboa”
…E eu sou de perder chance dessas?
- Srta Ana Lisboa? Com licença… eu tenho brevet de piloto privado, pelo aeroclube de SP…
- Campo de Marte? – ela me olhava com desconfiança – Com quem você teve aula?
- Com o Tenente Bergaminni, o Gordinho, o Conti…
- Mesmo? – ela agora sorria.
- Mesmo…
- Venha comigo.
Fomos… chegamos na porta da cabine de comando.
- Sr. Mytho, tudo o que o senhor souber aqui dentro será inteiramente sigiloso, concorda?
- Concordo, claro…
Entramos.
Vi o co-piloto com cara assustada…vi o navegador, passando a mão pelo cabelo suado…. a Srta. Lisboa saiu da cabine, ao fazer um gesto com a cabeça ao co-piloto.
Foi então que eu vi o piloto desacordado no chão…
Uma voz conhecida me veio aos ouvidos “Convidamos alguém entre os passageiros com conhecimentos em medicina que entre em contato com a Srta. Lisboa…..”
- Enfarto? – perguntei
- Não sabemos…
- Bem, ainda não sei o que estou fazendo aqui… os co-pilotos servem pra isso, não é? Pra assumir o lugar do comandante em caso de emergência…
O Co-piloto e o navegador se olharam, sem graça… o co-piloto falou.
- Na realidade, eu sou irmão do Comandante… sou arquiteto.
- ….
- …….
- E vocês querem que eu….. er…. que eu faça o quê?
- Bem… você tem brevet…. não tem?
- DE PILOTO PRIVADO, PORRA!! MONOMOTOR, TECO TECO, CHEROKEE!!!
- É mais que qualquer um aqui.
- Bosta. Ok. Já que é pra morrer, que seja pilotando um Boeing…
Mal me sentei, vi os faróis de um 747 na minha cara, era tarde demais… fechei os olhos…
- Senhor…senhor…
Alguém cutucava meu ombro…
- ME DEIXA MORRER EM PAZ, CACETE!
- Morrer, senhor? Nós já pousamos em São Paulo. O senhor adormeceu e deixou cair seu livro…
- Ah… brigado… er… o vôo foi muito agradável…
Muito sem graça, saí do avião e desci as escadas sem olhar pra trás…
Foi quando percebi que na outra saída do avião havia uma ambulância… alguém foi colocado lá em uma maca…. ao seu lado, um homem preocupado sentava-se na ambulância… eu o reconheci…era o irmão do comandante.
Nossos olhares se encontraram…. posso jurar que ele sorriu pra mim e piscou o olho.
Olhei pra trás e a Srta. Lisboa me olhava sorrindo… fez um ligeiro aceno e pude ler em seus lábios “Obrigado”.

