Conto de Natal
26 de dezembro.
Acordou com a maior ressaca de sua vida. O despertador tocando quase o levava ao limiar da insanidade. Sem abrir os olhos, tentou acertar a mão de uma vez naquele objeto do demônio que não se calava.
Ao bater a mão na mesa, acertou o copo de água que estava em cima da mesinha de cabeceira, que quebrou. Cortou o dedo. A mão ainda acertou o fio do despertador, que estava descascado.
Fio elétrico com água dá sempre o mesmo resultado, e o esticão que ele tomou ali foi quase fatal.
Atordoado, tentou ficar de pé. Seu primeiro passo foi, obviamente, em cima de um dos cacos de vidro.
No melhor estilo Saci-Pererê, chegou ao banheiro. Não achou a pinça pra retirar o caco. Que se dane, iria fazer então ali mesmo o seu número 2, e depois pensaria no pé ensanguentado.
Baixa calças. Baixa cueca. Senta. Bunda molhada. Claro, tava tão bêbado no dia anterior que fez xixi em todos os cantos do banheiro, menos dentro da privada. Xingando, aliviou o peso extra que o estava incomodando.
Cadê o papel? Não tem papel? Como ia secar a bunda? Como ia limpar a bunda?
Água, claro. Se tivesse. Mas não tinha.
Furioso, levantou-se e tentou chegar à cozinha. Calças pelo joelho, saltando em um pé só, bunda cheirando a mendigo.
Na cozinha, procurou papel toalha. Nada.
“Não tem tu, vai tu mesmo”, resmungou ele para o pano de chão.
Depois de se limpar(!?) com o pano de chão e ainda assim cheirando a esgoto, com um pé e um dedo sangrando, achou que seria melhor tirar o pijama ensanguentado, vestir uma roupa limpa e ir à farmácia.
Pegou o celular, viu que tinha 3 chamadas não atendidas. Resolveu ouvir a caixa postal, com medo.
Mensagem 1: Da namorada, desmanchando o namoro devido à vergonha que ele a teria feito passar na noite anterior.
Mensagem 2: Da mãe, chorando, dizendo que o pai fugira de casa com o mecânico. Aparentemente eles tinham um caso desde antes de ele nascer.
Mensagem 3: Do hospital, dizendo que já tinham o resultado dos exames, e pedindo para que ele fosse lá pessoalmente para conversar com o médico e com o psicólogo.
Começou a rir. O riso rapidamente passou a gargalhada e em poucos minutos ele estava no chão, dobrado de tanto rir e sem fôlego, com a mão ensanguentada por cima da barriga, que doía com o ataque de riso.
Sentou no sofá, ligou a televisão. Propaganda de ringtones e wallpapers de mulheres peladas.
Pensou em aquecer comida no microondas, mas teve medo de causar um holocausto nuclear, então comeu a lasanha congelada mesmo. Quebrou dois dentes no processo.
Chega. Aquilo era claramente uma mensagem.
Em um pé só, sangrando, de pijama e fedendo, abriu a janela. Estava no 10º andar.
Sem pensar, mergulhou, sorrindo.
Quando passava pelo 6º andar, foi atropelado pelo trenó do Papai Noel.
Sobreviveu, mas ficou paraplégico. Foi internado num hospício depois de tentar convencer as pessoas de que tinha sido atropelado pelo bom velhinho.
Hoje em dia vive numa cama. Não consegue se mexer, as pessoas têm que fazer tudo por ele. Toma sedativos muito fortes, então está sempre chapado com as drogas.
É feliz. Mas continua não gostando da publicidade dos ringtones.












December 27th, 2007 at 11:13 am
Po!
Nunca ri tanto essa hora da manhã!
Excelente texto!
Parabéns!!!
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December 27th, 2007 at 11:20 am
Hehehe valeu Gui!
Abração e boas festas!
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