Qualidade vs Quantidade
Estes dias li um post do Diesel (mas ainda assim, movido a vapor – OK, piada fácil), chamado “A incansável sala de espera do Consultório médico“, onde, basicamente, ele se queixa de ter marcado a consulta com mais de um mês de antecedência e ter sido atendido com muito atraso.
Permita-me polemizar. Eu sou filho de médico, e meu pai é desses. Ele aceita marcação com 30 anos de antecedência, mas provavelmente na hora você vai entrar na sala 15 ou 20 minutos depois da hora marcada. Na minha opinião, ainda bem.
Meu pai é Médico, com maiúsculas mesmo. O cara nasceu pra isso, sem a menor sombra de dúvidas. Está na natureza dele. Se ele tivesse uma base financeira que permitisse, eu tenho certeza absoluta que ele faria as consultas de graça, como eu já o vi fazer em mais de uma ocasião. Não tem dinheiro? Sem problema, vou aceitar um pedaço de bolo de chocolate, que eu sei que você faz como ninguém.
Tá sem grana, amigo? Consegue segurar um pincel? Então vai lá em casa e pinta uma parede que eu tenho lá e a gente tá quite.
Não recebeu salário esse mês? Passa quando tiver.
Pra ele, o que interessa é que o paciente fique bom. É claro que ele cobra as consultas normalmente, mas isso apenas deve-se ao fato de ele ser uma pessoa que precisa se alimentar de vez em quando.
Voltando ao assunto, você me perguntaria:
“Mas se ele é tão bom médico, gosta tanto de ajudar, então porque diabos ele atrasa no atendimento? Não terá respeito, o velho safado?”
Respondo eu, com meio-sorriso de superioridade: “É justamente por ter respeito que ele atrasa”.
É verdade. Estabeleço aqui um comparativo que me dará bases e fundamentos para futuras discussões:
Um médico “padrão”, de multinacional, normalmente atende na hora marcada. Ele tem as consultas divididas em blocos de meia hora, então, pra render, cada consulta é algo do tipo:
- Bom dia, dout…
- Qual é o problema?
- Tô com uma dor aqui no…
- Tira a blusa. Respira.
- A dor piora quando eu…
- Ok, toma esse remédio aqui e volta semana que vem. Próximo!
Quando você vai ver, já tá do lado de fora do consultório e nem conseguiu explicar direito qual é o problema. Aí o cara que tá na fila depois de você fica todo contente, porque vai ser atendido na hora. Mal e porcamente.
O meu pai é old school. Gosta de escrever, gosta de fazer o paciente se sentir confortável. Pergunta histórico familiar. Pergunta o que a pessoa almoçou no dia anterior. Faz exames “antiquados”, que envolvem aparelhos que não fazem “bip”, e outros modernos, que fazem um monte de “bip”. Conversa um pouco, dá conselhos de alimentação, postura, hábitos.
Você sai dali atrasado, mas satisfeito porque sabe que o serviço foi bem feito. Você se sente seguro e mais esclarecido em relação àquelas dúvidas todas que tinha, inclusive mais aliviado porque descobriu que a sua namorada não pode estar grávida depois daquela noite em que vocês se esfregaram sem tirar a roupa.
O cara que tá depois de você na fila tá puto da cara, porque tá atrasado, mas quando sair dali vai estar mais seguro em relação à sua saúde. Não vai pensar mais nisso porque saberá que está em boas mãos.
Opinião sincera? É preferível entrar irritado e sair tranquilo do que entrar tranquilo e sair frustrado.
Dizia a minha avó: “Depressa e bem, não há quem”.


January 17th, 2008 at 9:00 pm
Mytho, eu entendo e concordo com tudo o que você disse – embora, me desculpe o seu pai, eu não goste nada nada desse povo que se veste de branco (sejam eles médicos, enfermeiros, dentistas, pais-de-santo ou açougueiros – ok, eu abro uma exceção pro pessoal da Marinha, e só). Fato é que, não sei aí em terras lusitanas, mas aqui na terrinha dos tupinambás a pajelança já é há muito o meio mais eficaz de se ter saúde…
A propósito do assunto, achei num dos meus blogs antigos um post sobre o tema: http://anything_about_anything.blogs.sapo.pt/2182.html
Definitivamente eu tenho motivos pra não gostar desse povo…
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January 17th, 2008 at 11:01 pm
Poderia dizer que aí está a exceção para confirmar a regra. Poderia dizer que o que visam é só e tão somente o lucro pois quase todos atrasam porque marcam consultas de 15 em 15 minutos e depois levam mais tempo, mas vou dizer que:
sempre é importante ouvir/ver/considerar os dois lados da moeda.
Abraço.
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January 18th, 2008 at 12:49 am
Nadynne e Paulo, eu sei como é. Realmente meu pai é a exceção que confirma a regra, mas como ele e os colegas dele sempre foram os meus médicos, eu não conheci outra forma de ser atendido. Mas pelo que ouço o pessoal reclamando dessas consultas relâmpago, me considero extremamente sortudo
Beijo e abraço, respectivamente
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January 18th, 2008 at 4:57 pm
Trabalhei como atendente num consultório em que a médica marcava consultas de 15 em 15 minutos, a partir das 8h da matina. Só que ela chegava ao consultório depois das 9h, levava mais de 40 minutos em cada consulta e ainda ficava extremamente chateada se algum paciente reclamava. Dá pra imaginar a panela de pressão que era a sala de espera? Puzé… como levei patada de paciente, Deus do céu!
Um dia, caí na besteira de sugerir pra tal médica que as consultas fossem marcadas a partir do horário em que ela efetivamente chegava pra trabalhar, com um espaço de, no mínimo, 30 minutos de uma para outra. Ela quase me bateu.
Mas quero deixar consignado que ela era excelente médica. Excelente mesmo! Só não conseguia introjetar a noção de respeito pelo tempo alheio.
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Mytho respondeu eu January 18th, 2008:
Cláudia, meu pai tem dias que chega até mais cedo no consultório
E realmente 15 minutos é estupidamente pouco tempo…
=**
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January 19th, 2008 at 4:32 am
Eu não lembro de NENHUM médico que eu tenha ido e que, tendo marcado a consulta pra parte da manhã, tenha chegado na hora…
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