Vidas Estranhas - Turbilhão
E mais uma vez, ele estava decepcionado.
Tinha acabado de encontrar (de novo) provas irrefutáveis de que estava sendo enganado bem diante do próprio nariz. Era demais. A gota d’água.
Sabia o que devia fazer. Sabia qual o caminho certo. Faltava apenas seguí-lo. “Apenas”… como se fosse fácil. Como se fosse um ato corriqueiro, uma banalidade do dia-a-dia.
Olhou atentamente para as fotos, esperando que aquelas duas pessoas enroscadas na imagem mudassem subitamente de identidade, fazendo com que tudo voltasse a ficar bem novamente. Inútil. Conseguia ver bem o rosto dos dois protagonistas da foto. O olhar cúmplice, o abraço, as bocas quase encostadas, e o sorriso de satisfação.
Resistiu ao impulso de rasgar aquelas fotos e pousou-as em cima da cama. Começou a andar de um lado para o outro no quarto, como se fosse um tigre enjaulado.
Precisava agir. Precisava passar ao ataque. Não podia estagnar.
Foi à cozinha, abriu a porta da geladeira para pensar. Era um hábito seu. Abria a geladeira e ficava olhando lá para dentro, sem tirar nada.
Decidiu que ia confrontá-la assim que chegasse a casa. Ia colocar os pingos nos is, ia gritar, e ia embora dali. Não podia engolir um sapo desses.
Passou as horas seguintes ensaiando tudo o que ia dizer. Repassou o diálogo na sua cabeça vezes sem conta, alterando as respostas dela a cada vez, de forma a que ficasse preparado para qualquer vertente que a conversa pudesse seguir.
Barulho da fechadura.
Ela entra, cansada do dia de trabalho. Ainda assim conseguia estar linda, como sempre.
Olha para ele, sorri. Dá um abraço apertado, um beijo (como ela beija bem!) e vai para o quarto trocar de roupa.
Enquanto observa ela se trocando, ele decide.
Ela está perdoada. Mas só dessa vez.










