Experimentos infantis
Ele amarrou um pedaço de pano no joelho para estancar o sangue. Tinha visto na TV que dava certo, e se estava na TV, então era verdade.
Se levantou e recomeçou a correr. Seus amigos já estavam dobrando a esquina e ele precisava acompanhar. O joelho ardia um pouco, mas o sangue quente é o melhor anestésico e ele ganhou velocidade. Não podia chegar por último. Tudo menos último.
O pano ameaçava se soltar da perna ferida, e ele não sabia se segurava o pano, se parava pra amarrar direito, ou se simplesmente ignorava e deixava cair. Optou pela primeira. Segurou o pano, desfazendo o nó rapidamente. Com o pano na mão e a ferida sangrando, correu.
Alcançou seu primo. Sorrindo, passou por ele. E tropeçou. No tênis desamarrado. Agora o outro joelho tinha se juntado ao coro sanguinolento e um cotovelo seguia pelo mesmo caminho. Sentou no chão e começou a observar a gota vermelha que saía da sua perna esquerda.
Já havia se esquecido totalmente da corrida, e agora estava totalmente imerso na sua mais recente preocupação: de onde vinha o sangue? Se ele perdesse muito sangue, ficaria vazio eventualmente?
Pelos seus cálculos, tomava uma média de 20 a 30 tombos por ano, e alguns ralavam bonito. Se continuasse nesse ritmo, em quanto tempo ele ficaria vazio? Lá pelos 20 anos, talvez. Era preciso parar com a loucura. Ele não sabia bem qual a utilidade do sangue, mas sabia que era importante e ele não ia deixar que seu sangue acabasse assim, sem mais nem menos.
Não podia arriscar. Nunca mais ia correr na vida.
- Mãe, vamos no rodízio comer carne mal passada?
- Mas você acabou de almoçar, menino!
- Mas eu preciso de sangue. O meu tá acabando.
- Pede pro seu pai quando ele chegar.
Nessa noite, quando o pai chegou, ele tinha acabado de ralar o outro cotovelo, em mais uma corrida com seus amigos. Mas agora ele estava com vontade de lasanha. Decidiu que ficar vazio não devia ser tão ruim assim. O cheiro vindo da cozinha estava tão gostoso…

