Moleque sim, criança não!
E praticamente não precisaria dizer mais nada, depois do título deste texto. Mas como nem só de bons entendedores vive o mundo, lá vai Mytho dissertar.
Não gosto de trabalhar. Eu e mais 100% da população mundial. Ninguém gosta de trabalhar.
- Ah Mytho, eu gosto…
- Meus ovos.
- Mas Mytho, meu patrão é workaholic, ele ama trabalhar.
- Meus ovos com azeite, vinagre, e uma pitada de sal. Junte umas rodelinhas de cebola e sirva frio.
Já dizia o velho deitado numa pedra de madeira:
“A partir do momento em que você encontra algo que goste de fazer, deixa de ser trabalho e começa a ser diversão.”
Se você adora a sua profissão, você não está mais trabalhando. Começou a ser uma produção com prazer. “Trabalho” carrega uma conotação negativa. Tanto é que normalmente as pessoas dizem, “putz, que trabalheira” ou “esquece, vai dar trabalho demais” em vez de “eba, que trabalheira!” e “Vamos lá, vamos tuchar o rabo de trabalho, que alegria!”
Trabalho = ruim
Diversão = bom
Caso você discorde, pode ler o próximo post, que a partir daqui a minha base está nas linhas acima, e por isso você continuará discordando e me xingando até o fim deste texto. Estou lhe fazendo um favor. Saia. Já.
Aí você me pergunta:
- Mytho você gosta da sua profissão?
Por quem me tomas? É claro que não! Eu trabalho! Estou na área certa, função errada. Nada de mais nisso, eu e mais a torcida do corinthians estamos nessa situação. Felizes são os que verdadeiramente fazem o que gostam o dia todo.
Mas divago. Quem me conhece (pessoalmente ou até mesmo ao ler este site) já deve ter reparado que eu não levo as coisas muito a sério. Se houver uma forma de tirar um barato, lá estarei eu, de mãozinha levantada, louco para não perder o timing e poder dizer aquele pitaco que provavelmente só eu vou achar graça, mas que não conseguiria ir dormir à noite sem dizê-lo.
Sim, eu prefiro dizer uma piada que ninguém ria a ter que engolí-la sem dar uma chance. E o mais interessante é que normalmente eu sei quando não vão rir. E ainda assim eu conto. O que posso dizer, sou um aventureiro da brincadeira.
E “brincadeira” é uma palavra mágica. Sempre foi, desde a minha tenra infância, em que eu ainda tinha amigos imaginários, e bichinhos que viviam dentro dos meus olhos. Eu tentava assustá-los correndo na direção das paredes, portas, e outros objetos e desviando no último segundo, esperando que eles estivessem em pânico. Sim, eu criava um cinema 180º para seres imaginários que viviam nos meus olhos e viam tudo o que eu via. Não ria, eu tenho certeza que você fez coisas piores.
Voltando ao assunto, a palavra “brincadeira” seeeeempre fez meus olhos brilharem, com ou sem bichinhos lá dentro. Na época a palavra temida era “estudar”. Com o tempo, o pavor do “estudar” passou para o “trabalhar”, e a magia do “brincar” passou para o… jogar.
Simples. Temos o amadurecimento de duas palavras, dois conceitos. Infelizmente muitas pessoas não conseguem ver as coisas por esse prisma.
- Porra Mytho, trinta anos nas costas e ainda jogando joguinho de computador?
- Pô Mytho, esse seu Iphone só tem joguinho! É pra isso que você queria um celular novo?
- Mytho, você nunca fala de assuntos sérios… tudo o que as pessoas dizem você tenta transformar em piadinha…
Todos em coro:
- Mytho, como você é criança!

Foto retirada do blog Especiarias
Alto lá! Parou parou parou! Moleque é o termo correto. Criança é a senhora sua avó. Ou neta.
Apesar de gostar muito de crianças (não tirem esta frase do contexto, pelo amor de Jeebus), infelizmente não sou mais uma. Vontade não me falta, mas o tempo já se foi e agora tenho que me contentar em ser moleque, e se Thor quiser, sê-lo até o resto de meus dias.
O meu Iphone está cheio de joguinhos, é verdade. Mas não se deixe enganar. Tenho lá as poucas ferramentas de trabalho que preciso. E-mail, telefone, SMS, gerenciador de tasks, Office e VPN. Não uso muito nenhum deles, porque afinal de contas, quando estou trabalhando, é com um laptop na minha frente, e não o celular. Então quando estou com o celular na frente? Normalmente quando estou na rua, em muitas situações em que às vezes é preciso esperar em filas, esperar por alguém, esperar por alguma coisa. E é nesse momento que você vai estar do meu lado e vai me pedir pra jogar um desses joguinhos que me fazem tão criança (e que obviamente eu vou negar, porque vou querer jogar e no seu celular só tem merda que você nunca vai usar na vida).
Sim, eu adoro jogos de computador. E videogames também. Comprei o Wii. Mas confesso que é no computador que eu me divirto mais. Aí sou criticado. Pelas mesmas pessoas que logo a seguir a me criticar, vão ver televisão. É a diversão deles. Ou vão para a rua (atividade que eles exaltam tanto) sentar o cu no banquinho do barzinho, tomar um café e ficar olhando para ontem ou conversando sobre amenidades. Isso é ser adulto. Tô fora. Ser adulto não tem que ser fazer “coisas clássicas de adulto”.
Vejamos: ultimamente eu jogo um jogo chamado Eve Online. Basicamente é um Massive Multiplayer Online RPG passado no espaço. Você cria seu personagem, compra uma nave para ele, equipa a nave com armas, módulos, o que quer que você queira, e faz a sua própria história, de acordo com os seus critérios.
Faixa etária dos jogadores de Eve? 30. E estamos falando de mais de 200 mil jogadores inscritos (normalmente 15 mil online de cada vez).
Você tem que lidar com contas, percentagens, cálculos de dano, cálculos de defesas, decisões de que módulos escolher para cada nave dependendo de uma série de fatores. Há quem diga que é um dos jogos mais difíceis de se aprender hoje em dia. Pra criança? Don´t think so. Pra moleque? Sem dúvida! Eu perco passo horas em missões com o pessoal da minha corporação, matando piratas, recolhendo os destroços e vendendo as peças no mercado (aliás, o mercado de Eve é tão complexo, que existem economistas trabalhando junto aos desenvolvedores do jogo, para que a coisa se mantenha “estável”).
Durante cada uma dessas atividades (missões, mineração, comércio, trading, PvP), estou em contante contato com o pessoal da corporação, seja via texto ou por voz (usamos um software chamado Ventrilo), onde vamos conversando sobre amenidades, provavelmente as mesmas que conversaríamos se estivéssemos com o cu sentado no banquinho do bar.
Uma batida no carro, os filhos que querem um jogo novo, a aposentadoria que só chega ano que vem, o último passeio ao jardim botânico depois da reforma, e de vez em quando temos até a companhia de um policial (49 anos) de Minas Gerais que gosta de ficar tocando gaita quando a conversa morre.
Repare que os jogos não me impedem de sair de casa, não fazem com que eu deixe de conversar com amigos e família. Simplesmente são o meu hobbie, assim como artesanato, marcenaria, corridas de kart e bares são para outras pessoas.
Em relação a eu não conseguir ter uma conversa inteira sem brincar, você vai me perdoar, mas tudo o que eu mais prezo é o meu bom humor. Às vezes chego a pensar que é a única coisa de bom que eu tenho. Você não tiraria isso de mim, tiraria?
Moleque sim. Criança, infelizmente, não.


