Ninjas-Mirim
Esses dias tava lembrando de uma que me aconteceu em tenra idade, e que ainda não falei por aqui.
Seguinte:
Estava eu na flor da adolescência com meu irmão na laje de casa brincando de luta. Começamos com socos e pontapés, e decidimos avançar um passo no nosso treinamento shaolin.
Pegamos dois cabos de vassoura, e eis que duelávamos com duas espadas samurai, ferozmente. Pai trabalhando, mãe (no meu caso, madrasta) na cozinha sem prestar atenção na gente.
Golpe daqui, paulada dali, e decidimos que estávamos a um passo de nos tornarmos mestres.
Algumas semanas anteriormente, meu irmão tinha comprado de um amigo dele um par de nun-chakos ou, em inglês, Nun-Chucks. Para nós, eram apenas “chakos”.

O detalhe dos nossos “brinquedos” é que eram artesanais, ou seja, tinham sido feitos pelo irmão mais velho desse colega do meu irmão, e provavelmente com a pior intenção possível, utilizar em brigas de rua, ou seja, máximo dano possível.
Então a estrutura básica dos nossos chakos era a seguinte:
Dois cilindros de madeira interligados por correntes (até aqui, normal), rodeados por 2 centímetros de aço. Pois é. A madeira tinha um revestimento de 2 centímetros de aço. E sabe aquele emborrachado que costuma ter para amortecer e dar mais aderência na mão? Era uma mão de fita isolante.
Então temos, de dentro pra fora:
- Madeira maciça
- Aço
- Uma película de fita isolante
Sacou o brinquedo dos moleques?
Mais por instinto de sobrevivência do que por juízo, decidimos que não nos íamos atacar mutuamente com os chakos, e que em vez disso íamos começar a destruir um monte de tijolos que tínhamos ali na laje, e que nem sei bem o motivo de ali estarem.
A brincadeira era a seguinte:
O ninja da vez teria que realizar uma série de movimentos com o chako, dignos de cinema (girar o chako, trocar de mão, passar por baixo da perna, etc e tal), e o ajudante da vez jogaria um tijolo pro alto.
O ninja então acertaria o tijolo em pleno vôo, despedaçando-o, demonstrando assim que o tijolo nada mais era do que um simples mortal, e o ninja era o mestre superior de todas as coisas vivas existentes neste plano e dimensão.
A brincadeira demorou tão pouco tempo, que eu vou me dar ao luxo de narrá-la aqui do princípio ao fim.
Meu irmão começou por ser o ninja. Fez os malabarismos, eu joguei o tijolo pro alto, ele acertou de primeira. O tijolo quebrou em pedaços e a gente vibrou como se não houvesse amanhã.
Na minha vez de ser o ninja, fiz os malabarismos e igualei a proeza dele, fazendo o tijolo se arrepender de um dia ter nascido cozido.
E então meu irmão pegou no chako e pediu “Mytho, agora joga bem altão que esse vai ser foda!”
Vou sair um momento da narrativa, para deixar aqui um aviso. Quando dois moleques brincando com uma arma letal decidem que “a próxima vai ser foda”, chame a polícia. Nada de bom pode sair de um tipo de empolgação desses.
Voltando… ele fez os truques dele, eu me esmerei em lançar o tijolo pra cima, ele fez o movimento e…
O tijolo caiu no chão. Inteiro. Ele tinha errado o golpe. Porém algo estava errado. As mãos dele… vazias. Cadê o chako?
Olhei pra cara dele, e descobri no mesmo momento que o chako tinha escapado da mão dele e voado por cima do muro da nossa casa na direção dos quintais vizinhos.
Sem trocar uma palavra, descemos imediatamente da laje, entramos em casa, ligamos a televisão e começamos a assistir qualquer programa que estivesse passando na hora, naquele jeito de “estamos aqui a tarde inteira, não sabemos de nada, nada aconteceu” ou, como diria Bart Simpson, “I didn´t do it, you can´t prove anything”.
Passado aproximadamente uma hora depois do ocorrido, a campainha toca. Eu e ele trocamos olhares de puro terror, quando a mãe dele foi ao portão. Corremos para a janela e a cena era a seguinte:
Uma senhora de meia idade segurando o chako numa mão. Na outra, o dedo mindinho numa tala e gesso. Segue aproximadamente o diálogo dela com a nossa futura carrasca:
- Desculpe, me disseram que é aqui que moram os donos disso aqui (apontando para o chako com o dedo indicador e mindinho ao mesmo tempo, fazendo o sinal do capeta sem querer). Eu estava em casa, no meu quintal, estendendo roupa no varal, quando esse negócio voou e acertou o meu dedinho. Aí quebrou e tive que ir colocar gesso no hospital…
Roxa de vergonha, Dona Mara se desfez em pedidos de desculpas, dizendo que nos ia castigar, e que pagaria a conta do hospital, etc e tal.
Quando entrou em casa, porém, o resultado foi surpreendente. Entrou na sala com um semblante furioso, como se nos fosse matar, chako na mão. A boca dela se contorceu numa careta bizarra e de repente ela se desmanchou de rir. A imagem da tiazinha com o dedinho engessado era tão irreal que ela foi incapaz de nos dar uma surra, ou bronca sequer. Mas aquele chako a gente só voltou a ver depois de muitos meses, escondido numa gaveta do guarda-roupas do meu pai.
Moral da história: Nunca estenda roupas com o dedo mindinho levantado. É falta de educação e perigoso.
Para ver mais aventuras de minha juventude, leia a história do meu salto para a vitória, ou aquela vez que eu enfrentei um touro por dinheiro (em 3 partes). Para perder totalmente o respeito, pode também ler sobre quando eu e meu irmão fomos um pouco longe demais com nossos brinquedos…


October 6th, 2009 at 1:02 pm
Você já foi adolescente um dia? :O
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October 6th, 2009 at 2:18 pm
@naovouporai -estou a ser agora
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October 6th, 2009 at 8:10 pm
AH Para veii, eu ri MUITO INFINITAMENTE AO CUBO seja la o que isso quer dizer, tem umas partes sensacionais na historia, esta esta entre os posts que eu mais ri, juntamente com ” Deixei um clone meu para a companhia de agua cuidar e criar ” do seu acampamento, bolo de carne e etc. e a bombada do seu amigo na garota na praia..nossa eu leio este joça desde sempre

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Abraço Mytho, ri muito, de verdade.
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October 6th, 2009 at 8:13 pm
Ps: Fato obvio e ululante que a moral da historia e que a culpa e sempre dos outros seu cara de pau HUAHAUHAUHAUHA toda vez, impressionante.
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October 7th, 2009 at 7:22 pm
Eu sempre quis ter um desse…
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