E tá na hora da minha contestação aleatória:
Quantas e quantas vezes você vê nego falando “aaahhh… que saudades do meu Atari!!”
Ou então “que saudades daquela época em que ninguém tinha celular!”
Perdoe-me pelo meu rigor e objetividade, mas você NÃO tem saudades de jogar no seu Atari e você NÃO tem saudades daquela época em que ninguém tinha celular.
A prova disso?
Tá aqui. Um Atari 2600 com 10 jogos, 20 doletas. Tá barato, num tá? Então pode ir lá comprar, tá esperando o quê?
O quê? Não comprou? Ué.. mas não tava com aquela baaaaaita saudade de jogar? Tá aí sua chance!
Ah… não comprou…
Mas pelo menos você pode jogar seu celular fora! Assim você dá uma revivida naquela época em que celular não era importante! Joga fora, simplesmente livre-se dele!
Jogou? Tá se sentindo melhor? Ah, não jogou? Não entendi…
A saudade que você tem não é do Atari, não é da época em que ninguém tinha celular, porque hoje em dia eu aposto que se você sentar na frente de um atari com Enduro, River Raid e Pitfall, você não fica nem 20 minutos jogando cada jogo. Porquê?
Porque são básicos, primitivos, os gráficos não prestam, são lentos, são monótonos, não têm fim e hoje em dia qualquer relógio de pulso vai vir com jogos muito mais viciantes do que qualquer um desses, a cores, e 3D.
Não jogou o celular fora porquê? Primeiro, porque é a principal forma de alguém entrar em contacto com você. Provavelmente você nem tem mais telefone fixo. Fora isso, você tem ali o telefone de todas as pessoas que você conhece na sua vida, inclusive da sua avó, que também já tem o celularzinho dela. Você tem também em seu celular uma máquina fotográfica digital que quebra o maior galho quando você sai com seus amigos à noite, afinal de contas ninguém vai dançar com uma Cybershot pendurada no pescoço. Ah, e você também tem músicas, rádio, vídeos e internet no seu celular, que às vezes são uma mão na roda. E o que seria daquelas filas intermináveis nos bancos, consultórios, serviços públicos, se não fossem os jogos no seu celular?
Pois é.
Então porque é que bate aquela nostalgia quando você pensa naquelas épocas?
Elementar, caro cyber watson.
Você tem saudades.
Você tem saudades das coisas que você sentia quando jogava Atari. Você tem saudades do sentimento de descoberta que cada jogo te trazia. Você tem saudades da empolgação que você sentia a cada inovação na área dos jogos . Lembra da primeira vez que você viu Sonic? UAU, 3D MANO! NOÇÃO DE PROFUNDIDADE! E a primeira vez que você jogou Doom em multiplayer? Putz, eu me mexo aqui e o bonequinho ali no PC do meu irmão mexe AO MESMO TEMPO!
Você sente saudades da empolgação. Porque hoje em dia isso desapareceu.
Os avanços são tão rápidos e tão constantes, que se amanhã alguém chegar pra você e te disser “mermão, inventaram um capacete que te permite controlar um Avatar num mundo virtual apenas com a força do pensamento“, você vai apenas sorrir, dizer “putz, bem legal” e imediatamente vai saber que daqui a 3, 4, 5 anos essa tecnologia vai ser banal e já vai estar sendo substituída por outra que você nem ousa imaginar (ainda) que possa ser possível.
Acabaram as surpresas. Acabou a empolgação. Já tem cientistas fazendo testes com teleporte, já existem fórmulas que provam que é possível um ser humano viajar à velocidade da luz, temos um veículo em Marte que nos informa via Twitter como estão as coisas por lá, e nada disso nos surpreende. É tudo normal, é tudo previsível, e o pensamento geral é “o que virá agora a seguir e quanto vai custar no ebay?”
Felizmente eu vivenciei uma fase em que cada descoberta era apreciada e comemorada. Era empolgante mostrar para todos os amigos determinada novidade. Isso morreu.
Hoje em dia o auge da empolgação vem com a descoberta de um Iphone ou um Wii, mas ainda assim a sensação de surpresa não chega à empolgação que era antigamente.
Eu tenho saudades sim. Eu tenho saudades de mim mesmo, em uma época em que as coisas demoravam mais, eram mais caras, tinham pior qualidade, e eram quase inacessíveis. Eu tenho saudades do que eu sentia, eu tenho saudades de ser surpreendido.
Quando foi a última vez que você realmente vibrou ao descobrir algo novo e pensou “ei, eu não sabia que isto era possível!”
Pra mim, faz muito tempo. Tempo demais, até. É como seu eu acordasse todos os dias em um mundo diferente, e nada mais importa, nada mais impressiona, e onde qualquer novidade já é relíquia antes mesmo de ser inventada.
Tenho saudades da época em que realmente havia novidades.