Você Não Acreditaria…

Perdido na Europa, tentando ficar mais rico
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Archive for the ‘Cronica’

O tempo e a vida

October 08, 2008 By: Mytho Category: Cronica 2 Comments →

Ele já estava olhando para ela há uns bons vinte minutos.
Se ela tinha reparado, não tinha dado bandeira. Estava (ou fingia que estava) muito entretida com um livro, sentada ali naquele banco do parquinho.
Ele, do outro lado, segurando um sorvete que já pingava pela sua mão, não conseguia desviar o olhar daquela garota.

Amor à primeira vista, talvez. Se é que existisse tal coisa.
Existia.
Ele amava aquela garota. Sem nunca ter ouvido a sua voz, sem nunca ter visto o seu sorriso, sem nem saber a cor de seus olhos, ele sabia que era ela. Aquela era a mulher com quem ele deveria se casar, ter filhos, e envelhecer junto, até o derradeiro dia.

Ficou ensaiando qual a melhor forma de se aproximar dela sem assustá-la ou fazê-la pensar que ele era um tarado qualquer querendo roubar seu dinheiro ou pior, sua dignidade e honra.

“Oi, você vem sempre aqui?” …. não, manjada demais. Muito nerd.

“Olá, acredita em amor à primeira vista?” … meu Deus, me acerta com um raio se eu fizer isso…

“Bom dia, que horas são?” …. mas eu tenho relógio aqui no pulso, não vai colar… e ela também não tem relógio

“Que livro é esse que você está lendo?” …. dã… eu consigo ver o nome do livro daqui…

“Já li esse livro, está gostando?” … aí ela vai querer conversar comigo sobre o livro e eu não vou saber o que falar…

Ao longe, conseguiu ouvir um trovão. Sorriu e aproximou-se dela, coração batendo forte dentro do peito.

- Oi! Tudo bem? Vai chover.

Ela olhou para ele, fechou o livro, levantou-se e disse:

- Vai você.

E foi embora. Ele nunca mais a viu.

Origens - II

October 06, 2008 By: Mytho Category: Cronica 3 Comments →

Era provavelmente a mais alva ave da família Columbidae, ordem dos Columbiformes, filo Chordata.
“Uma Columba livia”, diria um passarólogo, ou um columbófilo, ou um columbina, ou seja lá qual for o nome dessas pessoas que observam, estudam, e babam ovo para a passarada.

Você, uma pessoa mais relaxada e antenada com a gíria da patota, diria simplesmente que era uma pomba branca. E era.

Dada a natureza fictícia desta história, esta pombinha branca estava em dia de Dona Maria, ou seja, estava lavando um par de calças, duas camisetas e 4 meias coloridas. Meias de pombas, como todos sabem, têm menos dedos do que meias normais de pessoas.

Kerer? (New Zealand Pigeon), Hemiphaga novaese...
Image via Wikipedia

Nossa pombinha estava nessa vida tranquila, quando se lembrou que tinha ainda que lavar umas peças de roupa para a celebração do matrimônio de um colega que vivia dando em cima dela, um verdadeiro urubu. Finalmente ia se casar e deixá-la em paz. Será? Será. Juntou seu vestido de gala (aquele que disfarçava seu peito de pombo) ao balde de roupa suja e continuou na lida.

Quero que fique bem claro que só obtive esta informação depois desta narração. De outra forma, não teria como eu saber de todas estas informações com um nível tão detalhado. Assim, cronologicamente falando, me aproximei dela e indaguei qual seria a atividade corrente daquela pombinha tão trabalhadora.

Após me informar de toda a atividade que eu mencionei lá em cima, ainda acrescentou que precisava cuidar de sua higiene corporal, secar bem as penas para que estas não ficassem armadas, e que depois iria esperar Roberval, seu namoradinho, à janela, para que pudessem passar um belo serão acompanhados.

E eis que ao falar isso, aparece o dito cujo. Roberval usava um terno branco, de sambista malandro, e um chapéu de lado, como manda o poeta. Bigodinho cafajeste, sorrisinho pilantra, molejo e gingado, todo o telecoteco e mais algum balacobaco.

Talvez por eu estar ali, a pombinha resolveu que a janela não era o melhor lugar para se namorar. Convidou Roberval a entrar em casa, e se despediu de mim com um largo sorriso.

Antes de ir, consegui ver pela janela (a mesma que supostamente deveria servir para o enlace amoroso do casal) que Roberval, ao entrar, cuspiu no chão.

Foi a gota d’água. Minha amiga pombinha pegou no balde e no rodo, e empurrou para cima de Roberval, exigindo que este limpasse tudo. Talvez seja o justo e o correto, mas também você há de convir comigo que não é todos os dias que se vê uma pomba branca namorando um porco malandro.

O urubu casou e foi passar a lua de mel na caatinga, onde a carniça é mais fedida. Sortudo, esse urubu…

Pombinha branca o que esta fazendo
Lavando roupa pro casamento
Vou me lavar, vou me secar
Vou pra janela pra namorar

Passou um moço de terno branco,
Chapéu de lado meu namorado
Mandei entrar, mandei sentar
Cuspiu no chão, limpa aí seu porcalhão

Nostalgia deslocada

September 23, 2008 By: Mytho Category: Cronica 25 Comments →

E tá na hora da minha contestação aleatória:

Quantas e quantas vezes você vê nego falando “aaahhh… que saudades do meu Atari!!”
Ou então “que saudades daquela época em que ninguém tinha celular!”

Perdoe-me pelo meu rigor e objetividade, mas você NÃO tem saudades de jogar no seu Atari e você NÃO tem saudades daquela época em que ninguém tinha celular.

A prova disso?

Tá aqui. Um Atari 2600 com 10 jogos, 20 doletas. Tá barato, num tá? Então pode ir lá comprar, tá esperando o quê?

Atari 2600 mit Joystick
Image via Wikipedia

O quê? Não comprou? Ué.. mas não tava com aquela baaaaaita saudade de jogar? Tá aí sua chance!
Ah… não comprou…

Mas pelo menos você pode jogar seu celular fora! Assim você dá uma revivida naquela época em que celular não era importante! Joga fora, simplesmente livre-se dele!
Jogou? Tá se sentindo melhor? Ah, não jogou? Não entendi…

A saudade que você tem não é do Atari, não é da época em que ninguém tinha celular, porque hoje em dia eu aposto que se você sentar na frente de um atari com Enduro, River Raid e Pitfall, você não fica nem 20 minutos jogando cada jogo. Porquê?

Porque são básicos, primitivos, os gráficos não prestam, são lentos, são monótonos, não têm fim e hoje em dia qualquer relógio de pulso vai vir com jogos muito mais viciantes do que qualquer um desses, a cores, e 3D.

Não jogou o celular fora porquê? Primeiro, porque é a principal forma de alguém entrar em contacto com você. Provavelmente você nem tem mais telefone fixo. Fora isso, você tem ali o telefone de todas as pessoas que você conhece na sua vida, inclusive da sua avó, que também já tem o celularzinho dela. Você tem também em seu celular uma máquina fotográfica digital que quebra o maior galho quando você sai com seus amigos à noite, afinal de contas ninguém vai dançar com uma Cybershot pendurada no pescoço. Ah, e você também tem músicas, rádio, vídeos e internet no seu celular, que às vezes são uma mão na roda. E o que seria daquelas filas intermináveis nos bancos, consultórios, serviços públicos, se não fossem os jogos no seu celular?

Pois é.

Então porque é que bate aquela nostalgia quando você pensa naquelas épocas?
Elementar, caro cyber watson.

Você tem saudades.
Você tem saudades das coisas que você sentia quando jogava Atari. Você tem saudades do sentimento de descoberta que cada jogo te trazia. Você tem saudades da empolgação que você sentia a cada inovação na área dos jogos . Lembra da primeira vez que você viu Sonic? UAU, 3D MANO! NOÇÃO DE PROFUNDIDADE! E a primeira vez que você jogou Doom em multiplayer? Putz, eu me mexo aqui e o bonequinho ali no PC do meu irmão mexe AO MESMO TEMPO!

Você sente saudades da empolgação. Porque hoje em dia isso desapareceu.
Os avanços são tão rápidos e tão constantes, que se amanhã alguém chegar pra você e te disser “mermão, inventaram um capacete que te permite controlar um Avatar num mundo virtual apenas com a força do pensamento“, você vai apenas sorrir, dizer “putz, bem legal” e imediatamente vai saber que daqui a 3, 4, 5 anos essa tecnologia vai ser banal e já vai estar sendo substituída por outra que você nem ousa imaginar (ainda) que possa ser possível.

Acabaram as surpresas. Acabou a empolgação. Já tem cientistas fazendo testes com teleporte, já existem fórmulas que provam que é possível um ser humano viajar à velocidade da luz, temos um veículo em Marte que nos informa via Twitter como estão as coisas por lá, e nada disso nos surpreende. É tudo normal, é tudo previsível, e o pensamento geral é “o que virá agora a seguir e quanto vai custar no ebay?”

Felizmente eu vivenciei uma fase em que cada descoberta era apreciada e comemorada. Era empolgante mostrar para todos os amigos determinada novidade. Isso morreu.
Hoje em dia o auge da empolgação vem com a descoberta de um Iphone ou um Wii, mas ainda assim a sensação de surpresa não chega à empolgação que era antigamente.

Eu tenho saudades sim. Eu tenho saudades de mim mesmo, em uma época em que as coisas demoravam mais, eram mais caras, tinham pior qualidade, e eram quase inacessíveis. Eu tenho saudades do que eu sentia, eu tenho saudades de ser surpreendido.

Quando foi a última vez que você realmente vibrou ao descobrir algo novo e pensou “ei, eu não sabia que isto era possível!”
Pra mim, faz muito tempo. Tempo demais, até. É como seu eu acordasse todos os dias em um mundo diferente, e nada mais importa, nada mais impressiona, e onde qualquer novidade já é relíquia antes mesmo de ser inventada.

Tenho saudades da época em que realmente havia novidades.

Consultório Lendário - Ex Trovertido

September 22, 2008 By: Mytho Category: Consultório Lendário, Cronica 6 Comments →

Peço que me perdoe pela demora em postar mais uma super consulta do Consultório Lendário, mas achei melhor deixar acumular alguns e-mails, pra depois não ter falta do que falar… chamem de “estratégia de agregação de conteúdo”, ou simplesmente de “preguiça”, como bem entenderem.

Vamos à cartinha entonces:

O ex me chamou pra ir ao cinema aí comentei que ia com um pessoal da empresa, e ele teve a cara de pau de me perguntar se não podiam chamá-lo..vê se pode. Depois de muito bla bla blá eu falei que tava namorando e o cara ainda me chamou pra ir lá com o atual? vê se pode.. o cara deve estar tomando muita morfina.. age como se nada tivesse acontecido..

Gatinha Requisitada

Gatinha Requisitada, os fatos são claros:

Sem conhecer a sua história com esse ex, eu posso garantir que ele fez merda no passado. E provavelmente não foi uma merda. Foi uma sequência constante (provavelmente comportamental), até que você chegou nele e deu um “amigão, tô fora”.

Posso estar redonda e drasticamente enganado (coisa que eu duvido, pois isso nunca acontece comigo 8) ), mas ele está claramente tentando te passar a mensagem “mas mas mas mas eu mudei, eu sou uma pessoa diferente, eu só quero ser seu amigo (tanto que eu quero ir com você e com seu namorado no cinema! Viu como eu mudei? Viu? Viu?)”.

Correndo o risco de trair a raça masculina e de entregar um de nossos muitos modus-operandi, deixe que te diga:

É a mais pura farsa. Ele se enquadra claramente na categoria “conquistador de araque”, e está provavelmente testando as próprias capacidades de te ter de volta. Para isso ele só precisa de uma abertura (no bom sentido) do seu lado.

Se ele for no cinema com vocês, eu aposto que ele vai ser o amigo mais atencioso do mundo. Vai ser super camarada dos seus amigos, do seu namorado. Vai perguntar sobre a sua família, vai querer saber tudo tudo tudo.


Só quero ser seu amigo, o que há de errado nisso?

No dia seguinte, ele vai te ligar (ou mandar um mail, ou SMS, whatever) dizendo que adorou voltar a te ver, e que o fez lembrar dos velhos tempos (lembra quando a gente foi aquela vez não sei onde, fazer não sei o quê?)

Depois da nostalgia, ele vai apelar para o “eu tento te esquecer, mas não consigo”.

E assim que você voltar pra ele, zás. Lá está o bom e velho canalha de sempre, igualzinho ao que era antes.

Agora com licença que eu vou ali pegar duas agulhas de crochê para furar os olhos de minha esposa, para que ela nunca venha a ler isto.

Para fazer sua pergunta aqui pro Consultório Lendário, é só enviar um e-mail para popolytho [arroba] gmail *ponto* com

Origens

September 19, 2008 By: Mytho Category: Cronica 14 Comments →

Então ele olhou em volta, e viu um pedaço de madeira no chão. Era tudo o que ele precisava.
Abaixou-se, agarrou a madeira, e olhou com um meio-sorriso para o gato, que observava-o de cima do muro.

Aquele mesmo gato que todas as noites ia paquerar a fazia uma gritaria de acordar morto. Aquele mesmo gato que destruíra sua plantação de margaridas. Aquele mesmo gato que arranhara o capô do carro.

Sem pensar duas vezes, ergueu a madeira acima da cabeça, e lançou-a com velocidade e precisão na direção do felino, que nem teve tempo de se desviar.

O barulho oco e seco da colisão faria estremecer qualquer pessoa que passasse por ali àquela hora. Com uma dor alucinante, o gato soltou um grito de sofrimento, enquanto saltava de cima do muro e corria para procurar abrigo, dolorido mas ainda vivo.

Sua vizinha, dona Francisca, assustada com o som de outro mundo que tinha acabado de ouvir, saiu à janela. Ao saber do ocorrido, ficou muito admirada por descobrir que um gato consegue emitir sons daquela natureza.

E assim nasceu “Atirei O Pau No Gato”




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