Origens - II
Era provavelmente a mais alva ave da família Columbidae, ordem dos Columbiformes, filo Chordata.
“Uma Columba livia”, diria um passarólogo, ou um columbófilo, ou um columbina, ou seja lá qual for o nome dessas pessoas que observam, estudam, e babam ovo para a passarada.
Você, uma pessoa mais relaxada e antenada com a gíria da patota, diria simplesmente que era uma pomba branca. E era.
Dada a natureza fictícia desta história, esta pombinha branca estava em dia de Dona Maria, ou seja, estava lavando um par de calças, duas camisetas e 4 meias coloridas. Meias de pombas, como todos sabem, têm menos dedos do que meias normais de pessoas.
- Image via Wikipedia
Nossa pombinha estava nessa vida tranquila, quando se lembrou que tinha ainda que lavar umas peças de roupa para a celebração do matrimônio de um colega que vivia dando em cima dela, um verdadeiro urubu. Finalmente ia se casar e deixá-la em paz. Será? Será. Juntou seu vestido de gala (aquele que disfarçava seu peito de pombo) ao balde de roupa suja e continuou na lida.
Quero que fique bem claro que só obtive esta informação depois desta narração. De outra forma, não teria como eu saber de todas estas informações com um nível tão detalhado. Assim, cronologicamente falando, me aproximei dela e indaguei qual seria a atividade corrente daquela pombinha tão trabalhadora.
Após me informar de toda a atividade que eu mencionei lá em cima, ainda acrescentou que precisava cuidar de sua higiene corporal, secar bem as penas para que estas não ficassem armadas, e que depois iria esperar Roberval, seu namoradinho, à janela, para que pudessem passar um belo serão acompanhados.
E eis que ao falar isso, aparece o dito cujo. Roberval usava um terno branco, de sambista malandro, e um chapéu de lado, como manda o poeta. Bigodinho cafajeste, sorrisinho pilantra, molejo e gingado, todo o telecoteco e mais algum balacobaco.
Talvez por eu estar ali, a pombinha resolveu que a janela não era o melhor lugar para se namorar. Convidou Roberval a entrar em casa, e se despediu de mim com um largo sorriso.
Antes de ir, consegui ver pela janela (a mesma que supostamente deveria servir para o enlace amoroso do casal) que Roberval, ao entrar, cuspiu no chão.
Foi a gota d’água. Minha amiga pombinha pegou no balde e no rodo, e empurrou para cima de Roberval, exigindo que este limpasse tudo. Talvez seja o justo e o correto, mas também você há de convir comigo que não é todos os dias que se vê uma pomba branca namorando um porco malandro.
O urubu casou e foi passar a lua de mel na caatinga, onde a carniça é mais fedida. Sortudo, esse urubu…
Pombinha branca o que esta fazendo
Lavando roupa pro casamento
Vou me lavar, vou me secar
Vou pra janela pra namorar
Passou um moço de terno branco,
Chapéu de lado meu namorado
Mandei entrar, mandei sentar
Cuspiu no chão, limpa aí seu porcalhão



