Eu não sei você, mas eu tenho uma certa experiência em viagens aéreas. Comecei a viajar de avião aos 4 anos de idade, sozinho, e foi assim até aos 19, todos os anos, pelo menos duas vezes por ano (uma ida e uma vinda). Pois é, ossos do ofício para quem tem pais divorciados morando em continentes diferentes.
Eu viajava com aquelas coleirinhas ao pescoço, escrito “UM” em letras vermelhas garrafais, que eu pensava que significava que eu era apenas um, e que depois vim a saber que significa “Unnacompanied Minor” (Menor Não Acompanhado).

Era como na imagem acima, mas em vez do avião, “UM”. Era utilizada não só para avisar o staff do aeroporto que eu estava sozinho, como também para guardar todos os documentos importantes para a viagem (passaporte, passagem, bilhete de embarque, etc e tal).
Havia algumas vantagens, como por exemplo não pegar fila para embarcar ou passar na polícia. Alguém do aeroporto pegava na minha mão e me levava até ao avião/meus pais o mais rapidamente possível. Às vezes, quando era preciso esperar, o meu lugar normalmente era na sala VIP do aeroporto (onde me chamaram de “senhor” pela primeira vez na vida, por volta dos meus 10 anos).
Houve uma vez em que me deixaram sozinho numa sala técnica com… computadores. Se a moça soubesse da minha fixação pelo negócio, jamais teria feito tal asneira. Cheguei perto do teclado, olhei pros lados, apertei uma tecla. Nada. Apertei outra. Apareceu um monte de coisa escrita no monitor. Apertei outra. Apagou tudo e ficou escrito piscando “Processando…” e sumiu. Tela preta. Até hoje penso naquele dia e me pergunto o que diabos terei eu feito.
Quando entrava no avião, sentava quieto, observando tudo e todos, até a decolagem. A partir do momento em que estávamos no ar, o meu destino era sempre o mesmo:
Primeira classe, fundão, enfiado atrás da última poltrona, com um cobertor por cima, escondido. A partir daí era apenas uma questão de tempo para o caos se apoderar de todas as aeromoças, que só me achavam quando eu decidia. Fazer o quê, era assim que eu gostava de passar o tempo.
E a partir dessas minhas “experiências” eu pude trazer para a minha vida adulta algumas características:
- Amo aviação, a ponto de ter o brevet de piloto privado (monomotores)
- Amo suco de laranja de pacote, daquele bem azedo, que era o único servido nos vôos
- Amo comida de avião
- Adoro turbulência
- Adoro olhar pros outros durante a turbulência
Aprendi muito cedo a apertar os cintos sempre que estava sentado, com ou sem sinal luminoso de apertar cintos.
Houve um dia em que eu estava sentado na poltrona perto do corredor, e havia um senhor que passava a vida me dando choque, por causa da eletricidade estática. Ele não parava quieto, sempre andando de um lado pro outro, falando em voz alta com os amigos, dando uma de alma da festa.
Preciso dizer que eu estava desagradado com a presença do fulano?
O sinal de apertar cintos apareceu, ele nem tchum. Ficou sentado no braço da poltrona do amigo, conversando e rindo.
O comandante fez o anúncio de turbulência à frente e pediu que todos voltassem para as poltronas e apertassem os cintos.
O cara nada.

Uma comissária foi falar com ele, pediu pro cara sentar. Ele sentou, ela voltou correndo pro lugar dela. Já dava pra ver que o negócio ia ser bom. A anta desaperta o cinto, levanta, senta no braço da poltrona do amigo de novo, e continua conversando e dando risada.
O avião dá uma balançadinha. O avião dá um tranco. O avião passa de repente por um diferencial de pressão que faz o avião subir muito, e muito rápido. Quem entende alguma coisa de física, pressão, ou simplesmente tem experiência em andar de avião, como era o meu caso, sabe que depois de uma subida dessas, pode até demorar alguns segundos, mas vai vir uma descida igual e proporcional. Eu comecei a sorrir antecipadamente.
O que aconteceu nos 3 segundos seguintes está tatuado na minha mente. O avião despencou no poço de ar, todos os passageiros quase gritaram (todos abriram muito a boca e os olhos, e alguns fizeram gritinhos como se estivessem numa montanha russa), e o sujeito que estava sentado no braço da poltrona bateu com as costas no teto do avião e despencou de cara no corredor, ao lado da minha poltrona.
Eu nunca fui conhecido por conseguir ficar quieto perante acidentes dos outros, e dessa vez nem me dei ao trabalho de tentar. Comecei a gargalhar com tanto gosto, que as pessoas em volta não aguentaram e começaram a rir desalmadamente também. A comissária veio ajudar e chorava de rir ao mesmo tempo que perguntava se ele estava bem. Eu já estava chorando e abraçado com a minha barriga, que estava doendo de tanto rir, e comecei a tentar falar.
Eu queria dizer “O idiota bateu no teto” mas só me saía “o idiota…. ” e mais uma explosão de gargalhadas… mais uma tentativa… “o idiota…” e outra explosão.
É claro que isso não ajudou nem um pouco as outras pessoas a se controlarem, e recomeçaram todos a gargalhar. Só consegui parar depois que o cara se sentou na poltrona dele e a comissária trouxe um copo com água. Depois disso, e durante o resto do vôo inteiro, sempre que o meu olhar se cruzava com o olhar de qualquer outro passageiro, nós dois começávamos a rir. O tiozinho passou o resto da viagem sentado e de boca fechada, e não olhou para mim uma vez sequer.
Eu já tive muitas aventuras em viagens, mas nunca ri tanto como nesse dia. E sei que qualquer pessoa que tenha estado lá se lembra disso até hoje.
Por isso que eu digo, caros companheiros… acendeu o sinal de apertar cintos, você pode ser o cara mais apertado do mundo e com a pior diarréia da história… senta, segura e aperta o cinto.