Vamos falar um pouco sobre a Iberia, essa gigante espanhola que faz vôos para o Brasil regularmente e que, por motivos econômicos, foi a escolhida para a viagem ao Brasil e volta.
Na ida, sem problemas. Nos avisaram no aeroporto “cada pessoa pode levar 23 Kg”. Maravilha. Fomos com duas malas, ambas meio vazias, para que na volta pudessemos vir com ambas cheias de muamba comprada em terras tupiniquins.
Escala no aeroporto de Madrid, Barajas (2 dias antes do acidente com o vôo da Spanair), e então, finalmente, São Paulo.
Por muito que me custe falar bem de espanhóis, devo dizer que o vôo de ida foi perfeito, tanto em termos de serviço como em termos de cumprimento de horários. Até mesmo os problemas de pressão nos ouvidos que eu costumo ter não estiveram presentes desta vez. O meu muito obrigado ao comandante por pensar nos passageiros e iniciar o processo de descida antecipadamente, fazendo com que este fosse mais lento e, logo, mais tolerável aos ouvidos.
Mas a volta…. ah, a volta…
EMPRESA MALA COBRA PELA MALA
No aeroporto de Bagulhos, em São Paulo, fomos ao check-in (ou como eu gosto de chamar, o chequinho).
Lembram lá no início que eu falei 23 Kgs por pessoa? Então.
Primeira mala na balança: 26 Kgs
Segunda mala na balança: 17 Kgs
Vamos brincar de matemática. Duas pessoas, cada uma com direito a 23 Kgs.
23 + 23 = 46
peso que podíamos levar.
26 + 17 = 43
peso que queríamos levar.
43 < 46, logo tudo estaria nos conformes.
"Senhor, a mala está com sobrepeso. Será cobrado excesso de bagagem" - disse a checadora do chequinho, me colocando em cheque.
Tentei argumentar com as contas acima, que não a convenceram.
"Senhor, são regras da empresa. Recomendo que tire 3 quilos de uma mala e coloque na outra."
Acontece, minha cara cara-de-batata, que as duas malas foram meticulosamente programadas, projetadas e concebidas para estarem com aquele conteúdo exatamente, para que houvesse proteção aos itens comprados durante as férias. Ou seja, remanejar o conteúdo demoraria tempo que nós não tínhamos.
- Quanto é o excesso de bagagem? - Perguntei, com resolução. Afinal de contas, 3 Kgs a mais não podem ser assim tão caros, não é mesmo?
- Cinquenta EUROS, senhor.
Retirei lentamente a faca de minhas costas, reprimi uma lágrima no canto do olho, suspirei, esbofeteei mentalmente aquela criminosa duzentas vezes, e então ela jogou a bomba derradeira:
- Se o senhor tiver outra mala, pode passar algum conteúdo para lá também.
- Mas não são 23 Kg por pessoa?
- Não, são 23 Kg por mala. Duas malas por pessoa.
Pára. Pára. Pára o universo, que eu tô com cãimbra.
- Então cada pessoa pode levar na realidade 46 Kgs, desde que dividido em duas malas de 23?
- Isso.
- Eu posso levar DUAS malas de VINTE E TRÊS QUILOS, mas não posso levar UMA mala de VINTE E SEIS?
- Exatamente.
Vamos fazer 5 segundos de pausa para refletir sobre isto.
...
...
Fez sentido agora?
Nem pra mim.
Chamada a supervisora da Iberia, o papo foi o mesmo. "Eu só cumpro regras, senhor. Eu sou uma otária, senhor. Eu mereço 500 chibatadas, senhor. bla bla bla bla"
No fim das contas, ela nos deixa com um "pode reclamar no site".
Ah claro. Depois de pagar tudo vou reclamar. Aí vai chegar um e-mail pra tiazinha da faxina na Iberia, que vai olhar, dar risada, fazer forward pra 500 amigos, e sonhar com a loteria. Obrigado, não.
Resolvemos utilizar um saquinho de pano que eu estava utilizando para levar 2 pipas que meu pai havia comprado. Sim, meu pai me deu 2 pipas do batman, dessas que se vendem em semáforo. É apenas para você ter noção da idéia que meu pai faz de mim, agora aos quase 30 anos de idade. Antes pipa que bengala, é o que eu digo.
Abrimos a mala pesada, passamos 4 Kg de roupa para dentro do saco, e levamos ele na mão.
Sim, nós andamos por 3 aeroportos internacionais com um saco de pano transparente cheio de roupa dentro. Não dá pra parecer mais mendigo que isso.
Chegamos a Madrid atrasados, e obviamente perdemos o vôo de conexão para Lisboa. Tudo bem. Fomos ao balcão de atendimento da Iberia e nos deram um novo vôo, para dali a 3 horas e meia. Também nos deram um vale-rango em um restaurante do aeroporto, como forma de compensar.
Fomos ao terminal onde íamos embarcar e tivemos que passar pelo detector de metais. Segurança em primeiro lugar, obviamente.
Passando a mochilinha da loira que estava comigo, eles decidiram abrir a mesma, pois havia algo suspeito lá dentro.
O que seria?
Um gel? Um líquido? Uma pasta de dentes?
Não.
Um canivete de metal. Um c-a-n-i-v-e-t-e. Faca. Instrumento de corte. Arma branca.
Minha digníssima tentava passar pela polícia espanhola com uma arma branca na mochila.
Meia volta, sai do terminal, vai no chequinho espanhol, e despacha mochilinha junto com as malas.
Volta pro terminal, passa de novo pelo detector de metais, e finalmente conseguimos chegar ao maldito restaurante "ARS" e almoçar decentemente na faixa.
Na volta para Lisboa, o comandante do MD-88 tava com pressa pra descer. Embicou o bicho pra baixo e dá-lhe chiclete para não explodir os tímpanos com a pressão. Eu devia parecer uma máquina de mascar, ali sentadinho abrindo e fechando a boca e forçando bocejos para manter a dor longe de mim.
Assim, meu caro companheiro, da próxima vez que for viajar, lembre-se de ler BEM as políticas de bagagem e de preferência deixem os canivetes dentro da mala no check-in.