Adrenalina no asfalto
Lá acordei eu, atrasado e ensonado para vir para o trabalho.
Acorda, banheiro, roupas, mochila, boné, chave de casa, chave do carro, beijo na patroa, beijo na gata, rua.
Entra no carro, liga carro, abre vidros, mete CD no máximo, e vamo nessa. Procedimento normal, em um dia normal.
Aproximadamente 3 minutos depois, em uma grande reta, eu vi um carro branco vindo na direção contrária e fazendo uns movimentos “agressivos”, meio em zig-zag. Foi quando eu percebi que na realidade os movimentos eram mais “sem controle” do que “agressivos”, ou seja, eu estava presenciando um carro a alta velocidade, sem controle, vindo na minha direção.
Instintivamente, pé no breque. Mas ABS é coisa de rico, e eu não tenho isso não sinhô. O carro branco (que se revelara uma van familiar velha) muito menos.
Puxo pela cabeça uma solução rápida para parar o carro no menor espaço possível antes de tomar a cacetada de frente.
Lembrei daquelas aulinhas básicas de condução defensiva/ofensiva que tive moooointos anos atrás. Olhei no retrovisor, não vinha ninguém. O trânsito que vinha na minha direção havia parado para não baterem no descontrolado, por isso eu tinha a estrada livre para ocupar as duas pistas. Mão no freio de mão, volante pra esquerda, e seja o que INRI quiser. INRI quis e eu parei o carro, de lado no meio da estrada. Estava me preparando para acelerar pra sair da frente da van, quando o motorista finalmente saiu da estrada e foi de frente com uma árvore. Tirei o carro do meio da estrada, saí correndo na direção da árvore.
Ao me aproximar do carro, vejo que o motorista está tentando abrir a porta e não consegue. Sem pensar duas vezes, enfia um soco no vidro, que quebrou em pedacinhos. O cara me sai de lá de dentro com um bebê no colo.
Dou a volta pro outro lado do carro e ouço o choro histérico de alguém. Uma mulher, que também tenta sair. Consigo abrir a porta pra ela. Pai, mãe e criança chorando, um abraçando o outro. Consegui ver que os adultos estavam bem, mas o bebê com um vermelhão na cabeça.
- Entra todo mundo no meu carro.
Entraram, e dei a volta pra trás, na direção do PS mais próximo. O caminho até lá foi com os três chorando, o cara dizendo pra ela que “eu te avisei pra você não sentar de lado no carro” e ela gritando pra ele “já te falei que ele devia ir sempre na cadeirinha”. Obviamente, com a gritaria dos dois, a criança só podia gritar ainda mais alto (fora o susto e a dor).
Deixei os três no PS e vim para o trabalho. Esperemos que a criança esteja bem, e que tudo não tenha passado de um susto.
Eu não vou sequer fazer considerações e entrar aqui em discussões de quem teve culpa de quê. É claro que ambos tiveram culpa, é claro que ninguém deveria dirigir àquela velocidade, é claro que ninguém se despistou de propósito, e é claro que estas coisas acontecem.
Errado mesmo foi virem gritando na frente do bebê, que já estava assustado o suficiente. Errado mesmo foi terem vindo discutindo, em vez de abraçados pelo outro estar bem. E mais errado ainda foi eu estar talvez tão nervoso quanto eles os dois e não ter mandado eles calarem a boca, pelo bem do menor.
Enfim.




