Você Não Acreditaria…

Perdido na Europa, tentando ficar mais rico
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Vidas Estranhas III

May 26, 2008 By: Mytho Category: Cronica 14 Comments →

De repente, apercebeu-se de que estava com fome. O ronco de sua barriga confirmara o que já vinha sentindo há meia hora. Fome. Impulso primitivo que garantia a continuidade do indivíduo. Alimentação. Instinto de sobrevivência já há muito tempo racionalizado e incorporado na sociedade.

Levantou-se preguiçosamente do sofá, cambaleou até a cozinha. Abrindo a geladeira, constatou mais uma realidade: geladeira vazia é desperdício de energia elétrica.
Lá dentro, apenas um pratinho onde outrora estivera um belo pedaço de carne ensanguentada. A recordação trouxe-lhe água à boca.

Carne

Estava decidido. Ia apreciar uma carninha.
Pegou a carteira, chaves do carro, e ganhou a rua.
No carro, começou a olhar em volta, enquanto dirigia para a periferia.
No caminho, uma jovem lia distraidamente um livro. Linda. Perfeita. Foi amor à primeira vista.
Estacionou o carro, aproximou-se dela.

- Boa noite! - disse ele, com um sorriso.
Ela ainda levou dois segundos a perceber que tinham lhe dirigido a palavra.
- Ah, olá! - respondeu, sorrindo.
- Me perdoe a ousadia, mas eu estou procurando algum lugar para comer, e confesso que quando passei por aqui de carro, notei uma linda, linda jovem sentada lendo um livro e tive que vir ver o seu sorriso.
Mostrando ainda mais os dentes, com o ego lá em cima, ela fechou o livro.
- Muito obrigada pelo elogio! Precisa de ajuda para encontrar comida?
- Se puder me aconselhar sobre lugares de qualidade aqui na região, seria realmente uma grande ajuda. Se decidir me acompanhar, o prazer será meu em oferecer-lhe jantar…
- Obrigada, mas eu já jantei e…
Uma faca atravessou rapidamente sua garganta.

Passou um dedo pelo sangue que jorrava e levou-o à boca. Magnífico. Um pouco de pimenta do reino e teria alimento de qualidade para uma semana. Carne macia estava difícil de encontrar naqueles dias.

Até que ponto

May 16, 2008 By: Mytho Category: Cronica 6 Comments →

Tytho e Betão eram dois amigos. Eram, na verdade, o melhor amigo um do outro.
Rápidos no raciocínio, tinham sempre uma resposta na ponta da língua. Estavam sempre sintonizados um com o outro. “Inseparáveis”, diziam os amigos quando se referiam à dupla. Até que um dia, ao conversarem filosoficamente sobre ameixas de madagascar, torneiras pingando e a consistência do pão de forma quando molhado em leite, tomaram uma decisão.

Foram a um cirurgião plástico e, decididos, revelaram:

- Doutor, queremos fazer uma cirurgia de união.
- Desculpe, pode repetir isso?
- União. A gente quer se unir. Sabe os irmãos siameses que nascem com 1 corpo e duas cabeças? A gente quer ser assim. Se a medicina atual consegue separar, também consegue unir.
- Mas… mas… eu creio que isso é anti-ético e…
- Doutor, em um país em que o que interessa é a cobertura mediática, você me vem com esse papinho careta de ética? Você vai ficar famoso!
- Bem, admito que o desafio é aliciante e…
- Tá decidido. O senhor vai juntar a gente em um só corpo, mantendo apenas as cabeças separadas.

A imprensa descobriu. Nos jornais, manchetes maldosas misturavam-se com manchetes de esperança e fraternidade:

“Cirurgia de união - até que ponto alguém pode ser homossexual?”
“Os melhores amigos do mundo decidem prová-lo!”

Na televisão, foram entrevistados por Jô Soares, Ana Maria Braga, Marília Gabriela, e deram uma palhinha no Faustão.

Chegado o dia da cirurgia, eles finalmente encontraram-se sozinhos no quarto.

- Betão, temos que definir algumas regras básicas. Eu sou canhoto, por isso o lado esquerdo do corpo vai ser meu.
- Certo. No banheiro, eu seguro, mas você balança. No máximo 3 vezes. Mais que 3 é masturbação e eu iria me sentir desconfortável.
- Justo.
- Tenho alergia a amendoins, por isso aproveita pra comer agora, que amanhã não dá mais.
- Sem problema… eu tava aqui pensando… como a gente vai fazer na hora de…
- Ah sim, eu também tava pensando nisso… você se refere a contatos íntimos com as mulheres, certo?
- Sim… como faz?
- Cara, quando estivermos com a minha namorada, você tem que prometer não sentir prazer. E eu prometo o mesmo para a sua namorada.
- Gostei.

Cirurgia feita com sucesso. Mídia por toda a parte, fazendo perguntas, mais entrevistas, mais televisão, mais rádio, mais loucura.
E chega um telefonema. Tytho atende o telefone, conversa durante alguns minutos e desliga, abobado:

- Fomos convidados para uma festinha privê na casa da… Mo..Mo…
- Mo Mo Mo quem, rapá?
- Mo Mo Mo nica Bellucci…
- …
- …
- Tá me tirando?
- N-não, cara… cabei de falar com ela.
- Mas ela convidou você ou eu?
- Larga a mão de ser besta, essa piada já perdeu a graça. Ela tá mandando um jatinho particular pra gente ir.

Dentro do avião, a discussão:
- Se ela der mole, eu que vou ter o prazer!
- Você nada! Eu que vou! Um dia você disse que ela é velha!
- E não é?
- Então! Pra mim tá no ponto!

Finalmente decidiram no Papel-Pedra-Tesoura que Tytho ia ser o felizardo da noite.
Jantarzinho romântico a três (ou dois e meio), Betão bebendo vinho e Tytho ficando chapado.
Sorrisos, olhares e sedução até que encontraram-se no quarto da atriz, despidos de pudores e roupas.

- Betão, você tá gemendo!
- Não, cara… tô bocejando… bocejando, é diferente!

E viveram juntos para sempre.

O retorno do guerreiro

May 06, 2008 By: Mytho Category: Cronica 19 Comments →

Então ela olhou para ele e, chorando, devolveu a aliança. Virou as costas e foi embora. Para sempre.
E, uma vez mais, ele encontrava-se solteiro.

O problema era que a cada vez que ele se via solteiro, estava um pouco mais velho, e desta vez não era diferente. Já não podia se considerar um jovem na flor da idade, mesmo não tendo ainda entrado na chamada “terceira idade”. Trinta e alguns. Longe de ser velho, mas também longe de ter aquela energia que um dia tivera.

Se antes ele saía para a balada nesta situação, hoje ele procurava alguém na net. Não se sentia com energia (e muito menos paciência) para sair e enfrentar a noite, o barulho, a muvuca, e, principalmente, a concorrência dos garotões de 20 anos, que dariam prazer 4, 5 vezes seguidas à presa daquela noite.
Não. Ele iria procurar de forma mais inteligente alguém que pudesse suprir suas carências.

E foi entrando nesses sites de encontros amorosos que ele conheceu Deusdelinda. Deusdelinda era uma garota linda, de 20 anos, que tivera o azar de ser registrada no cartório por um funcionário disléxico em um computador com a tecla de espaço quebrada. Linda De Deus acabou por ser Deusdelinda, e ela acabou por se acostumar com o nome, até porque as pessoas preferiam, por algum motivo, chamá-la de Linda.

E realmente, Linda era linda. Simpática, charmosa, e detentora de um corpo extremamente bem delineado. Tudo no lugar, sem qualquer efeito da gravidade aparente. Linda era definitivamente um achado para esse tipo de sites.

Ele podia não ser o cara mais jovem dali, e foi justamente essa a arma dele para chamar a atenção de Linda: a experiência.
Sabia o que elas gostam de ouvir. Sabia como elas querem se sentir, e ele se empenhou com todas as suas forças para fazer com que ela se sentisse única, especial, maravilhosa e amada. E ela se sentiu.

E foi então no MSN que ela tomou a iniciativa:

- Eu quero você.
- Eu também te quero, linda Linda.
- Você não está entendendo. Eu quero você.
- erm… como assim?
- Preciso sentir você dentro de mim.
- Você está se referindo a…
- Sexo. Amor. Selvagem. Gostoso. Tô doida por você.
- Cristo! Eu tô indo já aí! Segura essas intenções que eu não demoro!

Entrou no carro ainda com um tênis na mão, passou numa farmácia, comprou proteção, acelerou, passou 4 sinais vermelhos, e estacionou o carro à porta de casa daquela deusa do amor, sexo e luxúria.

Deu uma ajeitada no cabelo, calçou o tênis que faltava, sorriu para o espelho retrovisor e disse baixinho “é garotão, você ainda tá com tudo… agora você vai se dar bem com a ninfetinha…”

Saiu do carro, bateu na porta da casa dela.
Quando ela abriu, estava deslumbrante. Uma camisolinha meio transparente e mais nada por baixo.

Sorrindo sedutoramente, ela abriu um pouquinho as pernas e disse “entra”.
Quase babando, ele entrou dentro de casa dela e tentou se acalmar.

- Oi Linda… você tá.. maravilhosa… eu..eu…

Foi atacado imediatamente pela boca voraz de Linda, que o beijava como se fosse o último beijo da vida dela.
Linda era macia, cheirosa, quente, e sabia o que fazia. Ele estava no paraíso, sendo guiado pela diabinha mais tentadora que ele já tivera a oportunidade de conhecer.

Depois das preliminares, os dois não aguentaram mais e resolveram que era hora de consumar o desejo que sentiam.
Ela se posicionou em cima de um puff, apoiada nos joelhos e nos braços. Ele, de joelhos atrás, fez o que lhe competia.
Ficaram ali naquele movimento ritmado durante alguns minutos, e então ele começou a sentir o joelho dolorido de tanto raspar naquele chão irregular.
Se sentindo um ator de filmes adultos, resolveu se apoiar nos pés, ficando quase agachado, joelhos abertos um pra cada lado, movimentando-se com energia e vigor.

E então aquela sensação começou a se apoderar dele.

- aaaaaaaaahhhhhhhhhhh

Ele tentava resistir, mas não havia forma de parar.

- aaaAAAAAAAAAAAHHHHHHHH
- Tá chegando lá? Vem pra mim, vem! Você tá chegando lá?
- AAAAAAAAAAAAHHH!!! Não! É cãimbra!

E caiu para o lado, agarrado a uma perna, que, naquela idade, já não estava preparada para aquele tipo de atividade.
Eles ainda saem de vez em quando, mas ela agora chama ele de “tio” e decidiram que não vão mais chegar perto de puffs.

Cabeça a cabeça

April 29, 2008 By: Mytho Category: Cronica 3 Comments →

Então ela olhou para ele, sorriu suavemente, e disse “você não é meu dono”.
Ele ficou ali parado, tentando lidar com a devastadora verdade que aquela frase continha. Ele realmente não era dono dela.

- Mas nós… - tentou ele dizer
- Querido - continuou ela - nós somos um conceito. A sociedade é um conceito. Eu sou livre, eu sou mais eu, e eu não preciso de você, nem de ninguém

“…eu preciso de você” - ele pensou.

- Além do mais, olha para mim. Olha para o meu corpo. Olha para a minha vida, minha energia. Você realmente acha que daria conta?

“eu tentaria com todas as minhas forças” - pensou. Mas disse:

- Não. Eu acho que não.
- Pois é, meu caro! Eu gasto energia, eu preciso de energia para me alimentar. Esse negócio de ficar em casa deitada no sofá no seu colo é pra velho! E esse negócio de cozinhar pra você? Cê tá doido? Eu quero é sair. Eu preciso me divertir. Eu quero mais que você.

“você não é meu dono. Você não é meu dono” - a frase repetindo milhares de vezes em sua cabeça deixava-o louco.

- Não me leve a mal! O tempo que nós passamos foi ma-ra-vi-lho-so! Mas já deu. Já foi. Já era. Já num tô mais aqui, saca? Não consegue acompanhar, a gente não pode ficar ensebando mais ainda.

- Mas eu amo v….
- Nem fala isso, por favor! Não estraga! Estamos falando civilizadamente. Chantagem emocional aqui não.

“você não é meu dono você não é meu dono você não é meu dono”

- Que cara é essa?
- Você tem razão, minha cara. Eu não sou seu dono. Ninguém pertence a ninguém, e nós não seríamos a confirmação da regra, não é mesmo? - ele agora sorria assustadoramente.
- S-sim… mas…
- E o futuro a Deus pertence, é ou não é?
- Claro…
- Permita-me discordar.
- ?
- Permita-me refutar o que acabamos de concluir.
- Como assim?
- Vou citar um livro conhecido, chamado “O Pequeno Príncipe”, ou “O Principezinho”, dependendo do país onde você mora.
- Eu já li, mas o que tem a ver o…
- Lá, algures, há uma frase que fala sobre amizade e responsabilidade. Você se lembra?
- N-não..
- Lá diz que você se torna eternamente responsável por aqueles que você cativar. O conceito de responsabilidade, de certa forma, pressupõe alguma posse. Não em termos de ciumes ou autoridade, mas em termos de… responsabilidade. Respeito. Ajuda. Cumplicidade. Companheirismo. Intimidade.
- Claro.
- Então, seguindo nessa lógica, existe uma posse mútua entre duas pessoas que têm este tipo de elo. Tá acompanhando?
- Tô, mas…
- Então eu estou aqui à sua frente dizendo que você me cativou. Você tentou me cativar. Você conseguiu me cativar, e agora você é responsável por mim. Nós temos o elo. Nós temos o laço, e nós estamos unidos.
- Mas é que
- Eu tô pouco me lixando se você quer energia, se você tem energia a mais, ou se você é livre e vai mudar sua cidadania para os estados unidos! Você pertence a mim e eu pertenço a você. Talvez isso não te agrade, talvez agrade. Não importa.

- Você não está sendo coerente.
- Minha querida, eu vou colocar as coisas de forma simples. Você me tem e eu te tenho. Não sou homem de deixar as minhas coisas escaparem pelos meus dedos. Você não vai sair por essa porta sem antes me dar luta feia de argumentos. Eu tenho o amor do meu lado. Quem você chama pro seu time?

- Chega mais pra lá, quero deitar no seu colo e ver TV. Depois você vem comigo até a cozinha que eu quero te fazer aquela lasanha que você adora.
- E depois eu te levo pra dançar e depois a gente passa a noite brincando no quarto.
- Sou sua amor, você sabe né.
- Claro que sim.

Dia D

April 24, 2008 By: Mytho Category: Cronica 2 Comments →

Expectativa

A sua respiração irregular denunciava seu nervosismo. Porém, era o único indicativo de seu estado interior. Para alguém mais desatento, ele permanecia em estado de concentração total, como se fosse um predador farejando o ar à volta, aguardando a sua presa. E não era esse o caso?

Não. Não era. O caso não era predador-presa. O caso era predador-predador. Quem ele esperava não era de forma alguma mais fraco e, pior ainda, também o procurava.
Quando se encontrassem, tudo estaria zero a zero de igual para igual.

Pensou em tirar o capacete, mas sabia que isso podia lhe custar caro, então limitou-se a limpar uma gota de suor que escorria pela testa. E observou em volta.
Tudo parecia estar quieto demais para o seu gosto, e quase desejava ser pego de surpresa, para quebrar aquele estado de transe que se instaurava em cada milímetro de seu corpo.

“Resiste. Resiste, droga!”, continuava repetindo, sentindo o coração acelerar a um ritmo incerto.

Permitiu-se um segundo para olhar as horas. 15:43. Dois minutos. Dois minutos para iniciar uma sequência de eventos que poderiam mudar a sua vida (ou acabar com ela de vez).
Ajustou sua mochila, que agora começava a pesar demais e a ficar incômoda.

Foi quando sentiu um tremor no peito. Um tremor artificial, mecânico. Era seu dispositivo de comunicação, no bolso da frente. Retirou-o e leu “Chegaram. Se prepara e lembra de tudo o que te foi ensinado. Voltamos para te buscar às 2000″.

“É agora. Não posso mais voltar atrás. Estou sozinho.”

Então avistou quem procurava. Encolheu-se por reflexo. Depois, como quem toma uma decisão repentina, tirou o capacete, chamando a atenção da outra pessoa.
Sentindo-se um animal louco, ele deu-se ao luxo de sorrir. Aquilo era muito (muito) irregular.
Saiu de cima da moto.

- Oi!
- Oi - disse ela
- Você é a star77?
- Sim, mas aqui você pode me chamar de Luísa. - e sorriu
- Claro! Luísa! Me desculpe.
- Você é mais bonito pessoalmente…
- Você também…

A guerra tinha começado…



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