Então ela olhou para ele, sorriu suavemente, e disse “você não é meu dono”.
Ele ficou ali parado, tentando lidar com a devastadora verdade que aquela frase continha. Ele realmente não era dono dela.
- Mas nós… – tentou ele dizer
- Querido – continuou ela – nós somos um conceito. A sociedade é um conceito. Eu sou livre, eu sou mais eu, e eu não preciso de você, nem de ninguém
“…eu preciso de você” – ele pensou.
- Além do mais, olha para mim. Olha para o meu corpo. Olha para a minha vida, minha energia. Você realmente acha que daria conta?
“eu tentaria com todas as minhas forças” – pensou. Mas disse:
- Não. Eu acho que não.
- Pois é, meu caro! Eu gasto energia, eu preciso de energia para me alimentar. Esse negócio de ficar em casa deitada no sofá no seu colo é pra velho! E esse negócio de cozinhar pra você? Cê tá doido? Eu quero é sair. Eu preciso me divertir. Eu quero mais que você.
“você não é meu dono. Você não é meu dono” – a frase repetindo milhares de vezes em sua cabeça deixava-o louco.
- Não me leve a mal! O tempo que nós passamos foi ma-ra-vi-lho-so! Mas já deu. Já foi. Já era. Já num tô mais aqui, saca? Não consegue acompanhar, a gente não pode ficar ensebando mais ainda.
- Mas eu amo v….
- Nem fala isso, por favor! Não estraga! Estamos falando civilizadamente. Chantagem emocional aqui não.
“você não é meu dono você não é meu dono você não é meu dono”
- Que cara é essa?
- Você tem razão, minha cara. Eu não sou seu dono. Ninguém pertence a ninguém, e nós não seríamos a confirmação da regra, não é mesmo? – ele agora sorria assustadoramente.
- S-sim… mas…
- E o futuro a Deus pertence, é ou não é?
- Claro…
- Permita-me discordar.
- ?
- Permita-me refutar o que acabamos de concluir.
- Como assim?
- Vou citar um livro conhecido, chamado “O Pequeno Príncipe”, ou “O Principezinho”, dependendo do país onde você mora.
- Eu já li, mas o que tem a ver o…
- Lá, algures, há uma frase que fala sobre amizade e responsabilidade. Você se lembra?
- N-não..
- Lá diz que você se torna eternamente responsável por aqueles que você cativar. O conceito de responsabilidade, de certa forma, pressupõe alguma posse. Não em termos de ciumes ou autoridade, mas em termos de… responsabilidade. Respeito. Ajuda. Cumplicidade. Companheirismo. Intimidade.
- Claro.
- Então, seguindo nessa lógica, existe uma posse mútua entre duas pessoas que têm este tipo de elo. Tá acompanhando?
- Tô, mas…
- Então eu estou aqui à sua frente dizendo que você me cativou. Você tentou me cativar. Você conseguiu me cativar, e agora você é responsável por mim. Nós temos o elo. Nós temos o laço, e nós estamos unidos.
- Mas é que
- Eu tô pouco me lixando se você quer energia, se você tem energia a mais, ou se você é livre e vai mudar sua cidadania para os estados unidos! Você pertence a mim e eu pertenço a você. Talvez isso não te agrade, talvez agrade. Não importa.
- Você não está sendo coerente.
- Minha querida, eu vou colocar as coisas de forma simples. Você me tem e eu te tenho. Não sou homem de deixar as minhas coisas escaparem pelos meus dedos. Você não vai sair por essa porta sem antes me dar luta feia de argumentos. Eu tenho o amor do meu lado. Quem você chama pro seu time?
- Chega mais pra lá, quero deitar no seu colo e ver TV. Depois você vem comigo até a cozinha que eu quero te fazer aquela lasanha que você adora.
- E depois eu te levo pra dançar e depois a gente passa a noite brincando no quarto.
- Sou sua amor, você sabe né.
- Claro que sim.