Ser popular
Diariamente somos bombardeados por filmes de adolescentes americanos em que tudo se baseia à volta da popularidade. É a menininha que fica amiga das populares só pra ser popular e pisa nos antigos amigos, só pra no final se arrepender, pedir desculpas em público, ganhar os amigos de volta, e ficar ainda mais popular que as outras, é o cara que quer aquela garota popular, e faz de tudo para pensarem que ele é outra pessoa, e no fim das contas, quando consegue finalmente a garota desejada, percebe que gosta mesmo é daquela nerd que o ajudou a ser popular, entre muitas outras histórias.

Só os populares comem as menininhas bonitinhas
No Brasil o concurso de popularidade começa ainda mais cedo.
Eu sempre fui tímido e, portanto, anti-popularidade. Não só era tímido, como sempre tive trauma de rejeição. Quer combinação mais catastrófica?
Pra você ter uma idéia, eu NUNCA fiz aquela brincadeira “Quem quer brincar de ….. põe o dedo aqui, que já vai fechar!” com medo de que ninguém quisesse brincar do que eu estivesse propondo. Atingiu a gravidade da situação?
Eu era um Mythinho solitário e invisível. Não estou me queixando, muito pelo contrário. Popularidade, ainda por cima quando adquirida desde cedo, pode ser prejudicial. Nego começa a achar que todo mundo baba ovo pra ele, fica insuportável, mimado e normalmente, pisa em quem tenta passar batido sem ser notado.
Graças aos céus e à genética de papai e mamãe, eu era tímido mas tinha cérebro, e nunca tive medo de usá-lo. A minha infância foi passada aqui em Portugal, lendo livros, gibis, jogando xadrez, damas, Trivial Pursuit, entre outros jogos que estimulavam o intelecto.
Calma, eu não sou o Geek Supremo Maximus Nerdicus Porky´s. A minha aula preferida na escola sempre foi Educação Física, e eu sei jogar todo e qualquer esporte minimamente popular que me disseres: futebol, volei, basquete, tênis, ping pong, baseball, futebol americano. Inclusive tive aulas de natação, judô e fiz Kung Fu até me faltar 2 meses para o exame da faixa preta (que não pude fazer, pois vim morar em Portugal
). Ou seja, eu sou nerd, mas tô longe de ser o bicho do mato que tem alergia ao ar livre e a esportes.
A minha popularidade sempre se limitou a círculos fechados, onde eu normalmente podia ser eu mesmo sem a parte da timidez. Descobri já bastante tarde que conseguia ser engraçado sem ter que me esforçar e que havia gente que gostava realmente de passar tempo perto de mim.
Eu era daqueles que sentava na primeira fila da sala de aula e, quando os “populares” tentavam tirar barato, a resposta era sempre rápida e humilhante, daquelas que fazia o pessoal gritar “VIXE VIXE ÔRRA ÔRRA EU NUM DEIXAVA! CHAMOU O PAI DE COXINHA, A MÃE DE EMPADINHA E COMEU OS DOIS!” - entre outras frases super bem boladas do pessoal na época.
Ou seja, eu era a pedra no sapato do pessoalzinho descolado. Por um lado, eu era o nerd que só tirava nota boa e que ficava sempre de fora nas festas e baladas. Por outro lado, eu era “terreno perigoso” porque não podiam me agredir fisicamente (eu não era o gordinho nerd típico, e a luta livre sempre foi um must lá em casa entre eu e o meu irmão), e também não podiam tirar barato com a minha cara, correndo o risco de receber uma resposta de volta desconcertante e humilhante.
Como conviver com alguém assim? Não mexendo com ele. Deixa ele quieto. Se eu não mexer com ele, ele também não mexe comigo.
E assim passei pela infância e adolescência. Invisível, porém intacto.
E você, era popular?

