Nas minhas épocas de infância/adolescência, durante 3 ou 4 anos seguidos, meu pai costumava mandar eu e meu irmão para um acampamento de férias no interior de SP chamado Paraíso do Sol.
Normalmente ficávamos uma semana, mas chegou a acontecer de ficarmos 2 semanas seguidas. Assim como em todos os acampamentos de férias, a criançada sempre volta com centenas de histórias para contar, e o meu caso não é diferente. Eu poderia escrever páginas e páginas de histórias que me aconteceram por lá, desde entrar no refeitório vestido de mulher um dia antes do jantar à fantasia até tentar convencer os monitores (responsáveis por nós) a comprar um combustível ecologicamente correto chamado Urinolina, feito à base de urina de bode.
Mas a história que quero partilhar aqui hoje é diferente.
Tudo começou num dia em que houve a Trilha.
A Trilha era nada mais nada menos do que uma caminhada pelo meio do mato, pela lama, até o topo de um monte que havia ali. Demorava aproximadamente 3 horas e não podíamos levar água ou comida. Só quem levava cantil eram os monitores, que não cediam uma gota sequer de água durante todo o percurso.

Tá com sede? Bebe saliva!
Chegando ao cimo do monte, eles ensinavam técnicas para matar a sede sem ser preciso beber água, e ensinavam também a importância da água para o planeta e para a nossa vida.
Em seguida, com o povo já desesperado de sede, eles davam UM GOLE de água para cada um e, com um sorriso rasgado, jogavam o resto da água dos cantis no chão.
Pois bem, na volta o pessoal tava sempre sujo, com sede, e com fome, e quase na hora de jantar.
Naquele dia a comida era carne louca ou macarrão. Escolhi a primeira, que me parecia especialmente apetitosa naquela tarde. Foi também a escolha da maioria do pessoal que estava ali, visto que macarrão era repeteco do almoço.
Depois do jantar, fogueira, músicas, histórias, brincadeiras, e cama. E foi quando aconteceu.
Por volta das 4 da manhã acordo suando frio, já com a mão na barriga. Uma cólica vinda dos confins do fogo do inferno se apoderava de mim e eu mal respirava com medo que minhas resistências (a.k.a. “pregas”) falhassem e manchassem a minha reputação e o meu colega que dormia na cama de baixo do beliche.
Sem pensar em nada, saltei da cama e corri para o banheiro. Ao tentar abrir a porta, a voz sai lá de dentro:
“Volta pra fila, palhaço! Acabei de entrar!”
E foi então que percebi o ambiente à minha volta. Das beliches do quarto inteiro vinham gemidos e vozes dizendo “aê espertão, nada de furar fila hein….” e “volta pra sua cama que depois sou eu!”.
Eu sei que as pessoas gostam de se sentir parte de um grupo, e se sentem melhor quando compartilham experiências, mas aquilo era um pouco de exagero. Caganeira em grupo é intimidade a mais pra mim.
Quase ajoelhado de dor, voltei pra minha cama e foi com esforço herCUleo que aguentei até a minha vez, quando praticamente deixei um clone meu para a empresa de saneamento público cuidar e criar.
Quando finalmente nos reunimos de manhã com o restante do pessoal dos outros alojamentos, a cena era hilária se eu não estivesse no meio:
Os monitores trocavam segredos entre si, o pessoal só falava de cocô, e as meninas, tentando manter a pose, desconversavam, pálidas e com olheiras, distribuindo sorrisos forçados.
Os monitores, após conferenciar durante algum tempo, chegaram à conclusão que o problema era da sobremesa do jantar do dia anterior, um pudim meio estranho que a maioria do pessoal (inclusive eu) comeu.
Assim sendo, retirou-se a sobremesa do menu e substituiu-se por salada de fruta.
O almoço foi sopa e legumes, para acalmar os intestinos da galera, mas o jantar, depois de um dia (e uma noite) de atividades intensas, tinha que voltar a ter “sustança”.
Como o macarrão tinha acabado, o jantar era carne louca ou peixe.
Quando eu era mais novo, ODIAVA peixe. Lógico que parti pra cima da carne louca e fiz um pratão de pedreiro. E aposto que você já está batendo a mão na testa e murmurando “putz, que otário…” adivinhando o que se seguiu.
Mas é nessas horas que Nossa Senhora Dos Intestinos Soltos intercede por nós. Enquanto eu ia para a minha mesa, um moleque passou por mim e me deu uma trombada com tamanha força que o meu pratão de pedreiro de carne louca voou pelos ares e explodiu no chão.
Praguejando pelo meu “azar”, voltei para a fila pra pegar mais comida. A carne louca tinha acabado.
Xingando até não poder mais, aceitei o peixe que me jogaram na frente e fui resmungando pra mesa comer.
Por volta das 4 da madrugada, acordei com barulhos. As pessoas à minha volta gemiam, se contorciam nas camas e rogavam pragas à carne louca. Do banheiro, um colega nosso gritou a seguinte frase, que jamais esquecerei:
“Cacete! Minha bunda parece um semáforo! Já saiu o verde, o amarelo, e a qualquer momento eu sinto que vai sair vermelho!”
Mas dessa vez eu consegui rir e voltar a adormecer tranquilamente.